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O palhaço e o psicanalista - Como escutar os outros pode transformar vidas

O palhaço e o psicanalista - Como escutar os outros pode transformar vidas

"Escutar com qualidade é algo que se aprende. Depende de alguma técnica e exercício, mas também, e principalmente, de abertura e experimentação. É uma arte difícil de dominar porque seus efeitos visíveis acontecem no outro em um tempo real e segundo as leis do improviso: o riso, a metamorfose, o humor, a mudança de atitude com relação a si mesmo, ao mundo e aos outros".

O livro "O palhaço e o psicanalista", escrito pelo palhaço e educador Cláudio Thebas e pelo psicanalista e professor universitário Christian Dunker foi um grande marco para mim enquanto estudante de Medicina. Nas disciplinas de propedêutica médica e semiologia, somos ensinados a escutar o paciente e a fazer perguntas abertas, focadas e fechadas, evitando direcionar suas respostas. A minha primeira anamnese com um paciente real, por exemplo, durou 1 hora e 23 minutos (cronometrados!!), algo completamente inviável na prática médica. Com o passar do tempo e da experiência, fui aprendendo a adaptar minha entrevista de acordo com o local e especialidade em que o paciente estava, mas sempre buscando manter o que havia aprendido com o meu querido professor Miguel Hanna.

Ano passado, me deparei com a pesquisa da Dra. Dra Naykky Singh Ospina da Universidade da Florida (EUA), publicada no Journal of General Internal Medicine, na qual ela relata que os pacientes são interrompidos, em média, dentro de 11 segundos após terem começado a falar. Isso me pegou de surpresa. Como podemos querer que o paciente (a pessoa que mais sabe o que está sentindo, oras) nos conte sobre seus sintomas se não o deixamos falar?!

Observando os profissionais que acompanho percebi que essa é, infelizmente, a realidade. Como li em uma passagem do livro,

"... tiramos uma conclusão importante para a arte da escuta. Ela começa pela atitude de renunciar a exercer o poder que nos é atribuído. Para escutar, é preciso, como fazem o palhaço e o psicanalista, suspender o exercício de poder. Daí que a escuta seja uma atitude ética e política."  Os autores discorrem também sobre a importância da escuta hospitaleira: "Podemos dizer que a escuta envolve um contrato, cuja cláusula primeira é o acolhimento. [...] Sentir o que o outro sente, assumir a perspectiva dele, segundo sua própria língua e suas próprias razões. Se não houver empatia (Einfullung) entre analista e analisante, é melhor procurar outro". 

Ao longo do livro, os capítulos escritos por Dunker e por Thebas se entrelaçam, a ponto de não sabermos mais quem é efetivamente o escritor. Talvez porque, no fundo, ambos (e todos nós) tenhamos um pouco de palhaço e de psicanalista. No capítulo "A escuta que cura e o teatro da loucura", lemos que

"... o palhaço é um louco sábio que sabe que toda vida é uma loucura e tenta tirar as pessoas das suas próprias loucuras loucas."

E, afinal, isso faz todo o sentido!

"Nossa loucura é outro nome que damos para a vulnerabilidade, condição essencial e matéria prima de nosso trabalho, mas, também, meio e caminho para que algo diferente seja criado. Escutar o outro é concorrer para que sua loucura produza algo mais e além de... mais loucura."

Isso traz à tona uma característica tão temida pelos médicos, que é a demonstração de vulnerabilidade. Somos acostumados a sermos os sabichões, num pedestal de diplomas, e nos esquecemos de como a humildade deve ser intrínseca na prática clínica.

"Escutar é abrir-se para a experiência, acolhendo a vulnerabilidade e a contingência na qual ela nos coloca. Escutar é jogar, representar e viajar".

Vulnerabilidade promove conexão.

"Fazer da escuta uma 'experiência' é deixar que as palavras e os corpos nos cheguem, nos afetem, nos atravessem. Requer estarmos vulneráveis e dispostos para a aventura."

Afinal, para um médico ESCUTAR um paciente ele precisa, em primeiro lugar, QUERER, estar disposto. Entender o quão importante é isso. Cabe lembrar, também, que o médico também pode ser remédio. Quem nunca atendeu um paciente que, mesmo sem sair medicado, na porta vira para trás e diz: "Deus te abençoe doutor, já estou me sentindo melhor"

Os autores, então, nos convidam a também nos escutarmos (numa conversa entre eu e eu). Estamos tão imersos na loucura do dia a dia, com nossos afazeres e preocupações com os outros que esquecemos de olhar para dentro.

"Por isso a escuta também é a arte de nos tornarmos outros para nós mesmos, e deixar que o outro se torne um habitante de nós."

O livro percorre, ainda, outros tipos de escuta e de escutador, fala sobre a potência do silêncio, funções de linguagem e ainda traz um capítulo dedicado à escuta em ambientes digitais.

Convido você, leitor, a se abrir para este livro. Particularmente, eu não quero ser psicanalista nem palhaça, mas sei que a arte da escuta será imprescindível para a minha atuação como médica. Sigo como aprendiz...

"Como faz isso? Escutando, escutando e escutando.".

 

Referências:

Singh Ospina, N. et al (2018). Eliciting the Patient’s Agenda- Secondary Analysis of Recorded Clinical EncountersJournal of General Internal Medicine DOI: 10.1007/s11606-018-4540-5

Dunker, Christian. O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas. 256pp, São Paulo, ed. Planeta do Brasil, 2019.

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Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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