A neurociência como aliada ao ensino médico
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A neurociência como aliada ao ensino médico

Este post é o primeiro de uma série que gostaria de compartilhar com vocês sobre uma das áreas que venho estudando atualmente: o ensino médico. Trazer aqui informações sobre a neurofisiologia do aprendizado, a maneira como se forma e retemos informações e como a ciência pode contribuir para mudanças e inovações no ensino e aprendizado desde a formação até a educação continuada do profissional médico serão o assuntos abordados em nossas próximas discussões.

E, pra começar, quero desafiar você leitor com uma pergunta:

Você consegue lembrar exatamente os conceitos que aprendeu na sua primeira aula de fisiologia?

Se respondeu não, ok. É assim mesmo... Mas por que isso acontece?

Hoje, a neurociência, mais basicamente a neurofisiologia do aprendizado, é uma área que está em constante crescimento e pesquisas voltadas para responder essas e outras perguntas que envolvem o processo de aprendizado, memória e retenção da informação. 

A grande função do processo educacional está em melhorar, aumentar e estimular o aprendizado. Há alguns anos, achava-se que este processo era meramente dependente do meio no qual o aluno estava inserido e como essa informação era transferida para ele. Porém, com a neurociência foi visto que o processo de aprendizado e memorização depende em grande parte de fatores biológicos, biomarcadores cerebrais que estimulariam a formação e manutenção de novas conexões neuronais, em que o resultado final é a incorporação de capacidades cognitivas novas. E o nosso cérebro faz isso desde que nascemos. 

Voltando ao nosso exemplo do início deste post, o que acontece com os circuitos cerebrais que permitem que uma informação adquirida tempos atrás seja esquecida, é simplesmente o desuso dessas conexões neuronais que foram formadas. Em outras palavras, neurônios que "pegam fogo junto, estão ligados juntos". Ou seja, quando uma informação nova é aprendida, milhares de conexões são formadas, e estas conexões juntas comunicam-se e multiplicam-se. Logo, aprender é basicamente formar conexões. Porém caso as conexões não permaneçam "pegando fogo", juntas elas desaparecem. 

Em pesquisa recente realizada pela Harvard University, avaliando a prática de médicos jovens (até 14 anos de formado) e comparando com a prática médica de médicos com mais de 14 anos de formação, foi visto que os mais jovens tinham melhores desempenhos nos diagnósticos e cuidados com seus pacientes do que os médicos mais experientes. Além disso, a experiência do paciente era mais favorável e empática com aqueles mais novos. A conclusão do estudo é que, possivelmente os médicos mais "velhos" tinham maior dificuldade em manter-se atualizados e em estudo constante do que os médicos mais jovens. Logo, as conexões dos mais jovens eram mantidas, enquanto as dos demais, entravam em desuso. 

Dessa forma, muita coisa é explicada quando falamos no aprendizado médico. O grande volume de informações que o estudante de medicina é submetido, ao longo da faculdade, não são mantidas " pegando fogo", em partes pelo ensino médico da forma que é estruturado atualmente, e em parte pelo próprio estudante, que ao se deparar com uma estrutura desinteressante não se mantém motivado para a manutenção e retenção do conhecimento.

Portanto, leitor, aquela frase que nós estamos em constante aprendizado, e que o médico é um eterno estudante, deve ser aplicada para todos os profissionais, de uma forma estruturada e irrestrita. Manter as nossas conexões cerebrais em constate atividade, aprendizado e estimulação para memorização é um desafio não só individua,l mas para nós educadores e formadores de opinião.

Manter o nosso interlocutor curioso, motivado e atendo é parte fundamental para construirmos um conhecimento sólido e de longo prazo. Além de que essa motivação levaria ao aluno a busca de mais conhecimento, logo, mais conhecimento, mais conexões. 

A forma como podemos melhorar o processo de aprendizagem e retenção da informação será assunto das nossas próximas discussões.

Até lá.

 

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Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), professora da pôs graduação de Terapia Intensiva do HIAE, cursando doutorado em Pneumologia na Universidade de São Paulo(USP).

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