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Falta humanidade para a humanidade!

Falta humanidade para a humanidade!

Por vezes, enquanto acessamos redes sociais, vemos frases de incentivo e motivação que enaltecem nosso caráter humano, muitas vezes esquecido no âmbito empreendedor lucrativo atual.

É factível afirmar que várias destas frases motivadoras debatem verdades absolutas ainda em falta em nosso cenário populacional, contudo, tais afirmações não se provam como “proporcionadoras de um mundo melhor” quando apenas se limitam às redes sociais, sem que as pessoas que as consultam não tomem decisões que, de fato, reflitam o que tais observações questionam.

E isso nos leva até o nosso tema principal, que parece até piada, mas não é: falta humanidade para a humanidade!

Chegamos num derradeiro ponto onde as decisões tomadas por cada um atuam semelhante a uma lente, sendo que a partir dela, todos enxergam o mundo. Ou seja, cada um detêm sua própria visão de mundo, de modo que as observações prestadas pelo seu próximo não passam de meras “interpretações errôneas” acerca de um mesmo ponto.

Trazendo para o contexto do nosso país, chegou a hora do “jeitinho brasileiro” acabar. Tal método, que já é considerado uma das virtudes mais conhecidas acerca do Brasil no mundo estrangeiro, nada mais é do que um indivíduo tomar uma decisão de modo que essa o beneficie, mesmo em detrimento dos demais. Incluem-se nisso desde o ato de furar uma fila até as fraudes das normas de ingresso para obter bolsas seletivas em faculdades.

Por conta disso, diversos hospitais e centros de saúde estão realizando mudanças na estrutura de seus ambientes internos para que se tornem mais humanizados. E essas alterações não se limitam somente ao “estrutural” e se estendem ao atendimento prestado pelos profissionais da saúde que lá trabalham, bem como a participações de voluntários prestadores da disseminação da felicidade.

Vamos explicar melhor através de um exemplo: um paciente X, recebeu diagnóstico de câncer ósseo em estágio mais avançado, com algumas metástases em seu corpo. É verídico que esse paciente terá que lidar com não somente as mazelas que atacam seu corpo físico, mas também as que atacam sua mente.

Esse paciente X, ao iniciar tratamento de quimioterapia, teme seus efeitos colaterais, sobretudo a perda de cabelo, que segundo ele, acabará com sua aparência. Ao se dirigir ao hospital, se depara com longos corredores de paredes brancas, profissionais que apenas se dirigem a ele de maneira objetiva, uma unidade de terapia escurecida, fria e sem “sinal de vida”.

O paciente X, progressivamente, foi piorando em seu quadro clínico à medida em que não somente a doença avançava, mas também por não ter recebido tratamento humanizado adequado, e por conta disso, desenvolveu quadro psicológico de piora, com presença de depressão e tendências suicidas, até que acabou falecendo.

Agora, consideremos um paciente Y, que teve o mesmo diagnóstico que o paciente X, mas que ao contrário deste se tratou em um “hospital humanizado”, com corredores com imagens ilustrativas que despertavam alegria e felicidade, médicos que à todo momento perguntavam como ele se sentia, visita de voluntários periodicamente, para auxiliar na disseminação de um quadro de descontração para os pacientes, com música e iluminação adequadas.

Esse mesmo paciente, apesar de ter tido o mesmo desfecho do paciente X, relatou que o tempo de tratamento no hospital foi um dos melhores de sua vida, onde a todo momento sensações de alegria e felicidade despertavam em seu corpo, apesar da doença presente.

Ou seja, mesmo que a doença do paciente seja incurável, simples mudanças no ambiente hospitalar, de forma a torná-lo humanizado, fazem grande diferença para o tratamento daqueles que necessitam.

Um exemplo de programa voltado a esse objetivo são os “Doutores da Alegria”: “uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que introduziu a arte do palhaço no universo da saúde, intervindo junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social em hospitais públicos”.

Tal programa foi fundado pelo ator e palhaço Wellington Nogueira, em 1991, a partir das suas observações das situações ambientais de insalubridade e falta de humanização em hospitais públicos de São Paulo.

Essas mudanças humanitárias, inclusive, são benéficas até para os próprios profissionais da saúde, à medida em que os mesmos lidam com o ambiente hospitalar diariamente. A presença de alterações que tornem o lugar mais “descontraído” atua beneficamente no seu trabalho e na sua saúde mental.

Outros exemplos de mudanças que geram grandes resultados podem ser aplicadas em salas de ressonância magnética. Pelo simples fato desses tipos de máquinas requererem um espaço apertado em seu interior, alguns pacientes claustrofóbicos podem acabar ativando “gatilhos” de suas crises e, assim, deixar de fazer o exame.

Por conta disso, foram sendo desenvolvidos aparelhos cada vez menores para realizarem o exame de um membro por vez, ao invés de ser de corpo inteiro. Outra alteração que foi sendo feita é a pintura das paredes de tais salas com ambientes que despertam calma, como um lago ou uma floresta. Tudo num objetivo de evitar o desenvolvimento dessas crises.

Portanto, como visto, pequenas atitudes são essenciais para um hospital ou uma clínica se tornar “humanizada”, desde alteração da pintura de salas e corredores, até a organização de pequenas brincadeiras ou jogos que envolvam os pacientes. Essas ações auxiliam na melhora psicológica dos mesmos, evitando que se foquem na doença, e permitindo que enxerguem o que a vida tem de melhor para oferecer.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. BETTINELLI, Luiz Antonio; WASKIEVICZ, Josemara; ERDMANN, Alacoque Lorenzini. Humanização do cuidado no ambiente hospitalar. Pessini L, Bertachini L, organizadores. Humanização e cuidados paliativos. São Paulo (SP): Edições Loyola, p. 87-99, 2004.

2. BACKES, Dirce Stein; LUNARDI FILHO, Wilson D.; LUNARDI, Valéria Lerch. O processo de humanização do ambiente hospitalar centrado no trabalhador. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 40, n. 2, p. 221-227, 2006.

3. MOTA, Roberta Araújo; MARTINS, Cileide Guedes de Melo; VÉRAS, Renata Meira. Papel dos profissionais de saúde na política de humanização hospitalar. Psicologia em estudo, v. 11, n. 2, p. 323-330, 2006.

4. FORTES, Paulo Antonio de Carvalho. Ética, direitos dos usuários e políticas de humanização da atenção à saúde. Saúde e Sociedade, v. 13, n. 3, p. 30-35, 2004.

5. BACKES, Dirce Stein; LUNARDI FILHO, Wilson Danilo; LUNARDI, Valéria Lerch. Humanização hospitalar: percepção dos pacientes. Acta Scientiarum. Health Sciences, v. 27, n. 2, p. 103-107, 2005.

Academia Médica
Fernando Antônio Ramos Schramm Neto
Fernando Antônio Ramos Schramm Neto Seguir

Atual graduando em Medicina pela Universidade Salvador.

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