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HIV e Envelhecimento: Pesquisa Expõe Riscos, Estigmas e Negligência

HIV e Envelhecimento: Pesquisa Expõe Riscos, Estigmas e Negligência
Comunidade Academia Médica
jun. 25 - 4 min de leitura
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Apesar dos avanços no combate ao HIV nas últimas décadas, uma parcela crescente e vulnerável da população continua sendo negligenciada pelas campanhas de prevenção e tratamento: os adultos com 50 anos ou mais.

Um estudo publicado na revista The Lancet Healthy Longevity em março de 2025, revela dados preocupantes sobre a prevalência do HIV entre os mais velhos em países da África Subsaariana, especialmente no Quênia e na África do Sul, e alerta para as lacunas nas estratégias de saúde pública voltadas para esse grupo.

Entre 2000 e 2016, o número de adultos com 50 anos ou mais vivendo com HIV na África Subsaariana dobrou. Atualmente, esse grupo apresenta uma prevalência de HIV igual ou até maior do que a dos jovens adultos, desafiando a ideia equivocada de que o HIV é uma doença exclusiva da juventude. A projeção é que, até 2040, um quarto das pessoas vivendo com HIV na região tenha mais de 50 anos.

Dr. Luicer Olubayo, pesquisador do Sydney Brenner Institute for Molecular Bioscience (SBIMB), destaca que a visão limitada sobre quem adquire HIV prejudica a eficácia das campanhas: “Pensamos no HIV como uma doença de jovens. Isso se reflete no fato de que a maioria das campanhas é direcionada aos mais novos”.

Segundo o Professor F. Xavier Gómez-Olivé, da MRC/Wits-Agincourt Research Unit, as pesquisas populacionais frequentemente ignoram as faixas etárias mais altas, criando uma lacuna significativa de dados. “As pesquisas sobre HIV se concentram nos mais jovens, o que nos impede de compreender a prevalência, incidência e eficácia do tratamento em pessoas idosas”, afirma.

Esse vácuo informacional compromete o alcance das metas da UNAIDS para 2030, o chamado 95-95-95: 95% das pessoas vivendo com HIV conhecendo seu status, 95% delas em tratamento e 95% com carga viral suprimida.

Estigma, diagnóstico tardio e barreiras ao cuidado

Um dos maiores obstáculos ao cuidado é o estigma, que se agrava com o envelhecimento. A vergonha associada ao diagnóstico contribui para a baixa adesão aos testes e ao tratamento, especialmente entre os mais velhos. “Entender o estigma relacionado ao HIV nessa faixa etária é fundamental para desenvolver intervenções que apoiem sua saúde mental e bem-estar”, explica Olubayo.

Além disso, muitos idosos não acreditam estar em risco de contrair HIV, o que reduz a busca ativa por prevenção e exames diagnósticos.

O estudo também reforça que o HIV deve ser compreendido e tratado como uma doença crônica, especialmente entre os mais velhos. Com o aumento de condições não transmissíveis como hipertensão, diabetes e obesidade entre idosos africanos, a integração do cuidado com HIV aos serviços de doenças crônicas torna-se uma estratégia lógica e necessária.

A pesquisa sugere intervenções específicas, como:

  • Campanhas voltadas à população com 50+;

  • Incentivo à testagem periódica;

  • Inclusão de profilaxia pré-exposição (PrEP);

  • Combate ao estigma de forma interseccional com temas de envelhecimento, gênero e educação.

Fatores de risco: um retrato multifatorial

A pesquisa evidenciou que idade, gênero, escolaridade, estado civil e localização influenciam diretamente o risco de infecção. Mulheres viúvas apresentaram a maior prevalência (30,8%), o que pode estar relacionado à perda de parceiros por HIV, envolvimento em relações de risco, e menor poder de negociação no uso de preservativos.

A falta de escolaridade formal e baixa renda também foram associadas a maior risco de infecção.

O poder dos dados longitudinais

Um dos maiores trunfos da pesquisa foi o uso de dados longitudinais, possibilitando o acompanhamento das mudanças na prevalência e no impacto do tratamento ao longo do tempo. A equipe analisou dados do Africa Wits-INDEPTH Partnership for Genomic Research (AWI-Gen), coletados em duas ondas: entre 2013-2016 e 2019-2022, em centros urbanos no Quênia e em locais urbanos e rurais na África do Sul.

Os dados são provenientes de adultos com 40 anos ou mais e fazem parte de uma ampla iniciativa envolvendo seis centros de pesquisa em quatro países africanos: África do Sul, Quênia, Burkina Faso e Gana.


Referência:

University of the Witwatersrand. "HIV is surging in over-50s—But campaigns still target the young." ScienceDaily. ScienceDaily, 21 June 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/06/250621233836.htm>.

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