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Médicos devem programar?

Médicos devem programar?

Com todas as notícias sobre inovação em saúde que nos bombardeiam diariamente pela internet e pelas nossas redes de contatos, muitos colegas acadêmicos de medicina e médicos formados devem se sentir "peixes fora d'água" quando o assunto é tecnologia. Afinal, a "arte de curar" nos demanda tanto tempo para dominar seus conceitos e suas práticas que consideramos impossível encaixar horas de estudo sobre tecnologia e computação em nossas agendas abarrotadas com atividades, mesmo que tenhamos o desejo de aprender. No fim, questionamos se aprender a programar seria realmente útil para o exercício da nossa profissão.

Assim, decidi escrever esse artigo para tentar convencê-los, caros colegas, de que, sim, aprender a programar é altamente recomendável, apesar de não achar que todos devam programar. Na minha opinião, é aconselhável que não só nós - futuros médicos ou médicos em exercício - mas todas as pessoas desenvolvam essa habilidade (o mínimo já seria suficiente e vou explicar o porquê ao longo do texto).

Apresentarei abaixo alguns dos principais questionamentos que já ouvi como Cientista da Computação e que tentarei responder da melhor forma possível como estudante de Medicina.

 

Primeiro de tudo: o que é "programar"?

Programar consiste em escrever uma solução para um problema.

Note que eu não disse que programar é resolver um problema, mas sim escrever uma solução para um problema.

Quando pensamos em resolver um problema (seja ele qual for), desenvolvemos um algoritmo, isto é, uma sequência finita de passos que resolva um determinado problema.

Algoritmo: é uma sequência de passos finitos utilizada para resolver um determinado problema.

Vou dar um exemplo para facilitar a compreensão:

Consideremos o problema: "Abrir porta".

Como faremos para resolvê-lo? Podemos gerar o seguinte algoritmo:

  • (Passo 1) Pôr a mão na maçaneta
  • (Passo 2) Girar a maçaneta
  • (Passo 3) Empurrar a porta
  • (Passo 4) Soltar a maçaneta

Pronto! Temos um algoritmo para resolver um problema (abrir uma porta) e, quando o executamos, geramos um output: porta aberta. Problem solved!

 

Quais os benefícios de programar?

Programar um computador para resolver um determinado problema vai muito além de só escrever linhas de código.

Antes de sairmos escrevendo o código, precisamos imaginar a solução para problema. Isso demanda raciocínio lógico e te desafia a entender todas as nuances daquele problema a ser resolvido.

Além disso, o processo de resolução de problema te faz pensar em possibilidades de solução diferentes para cada problema. Vocês devem concordar que há várias modos diferentes de se abrir uma porta. Ao invés de usarmos o algoritmo acima, podemos abrir uma porta de outra forma:

  • (Passo 1) Pegue um pé-de-cabra
  • (Passo 2) Arrombe a porta com o pé-de-cabra

Independentemente do algoritmo (este ou aquele), obteríamos o mesmo output: uma porta aberta e o problema seria resolvido.

Em seguida, com uma solução eleita como a melhor, você passa a considerar a possibilidade de expandir esse algoritmo para resolver problemas similares. Você começa a se questionar: "Se eu resolvi o problema X , será que é possível utilizar essa solução para o problema Y também?". Você passa a tentar escalar sua solução e a começar a pensar em resolver problemas sistematicamente.

No exemplo da porta, por que não aplicar o primeiro algoritmo que construímos para abrir qualquer porta?

Escreva uma vez, resolva vários casos.

 

Programar é difícil? Como começar?

Não. Definitivamente, programar não é difícil. Basta ter vontade e se empenhar, como qualquer outra habilidade. Você passará a analisar soluções como um algoritmo automaticamente depois de você compreender como eles funcionam e de construir alguns algoritmos utilizando caneta e papel.

Já para começar a programar e rodar seus primeiros programas, se você tem um computador e um editor de texto (como o famigerado "Bloco de Notas"), você está mais do que munido com as ferramentas necessárias para começar.

Hoje em dia existe muito material e vídeos gratuitos e com alta qualidade na internet. Tem muita gente boa se doando a transformar a vida de outras pessoas por meio da programação e estruturação de algoritmos.

Contudo, para começar a por mão na massa, recomendo estudar e usar uma linguagem mais fácil (isto é, que não requeira conhecimentos em computação). Python, na minha opinião, é a melhor para esse caso. Aliás, é uma das linguagens mais populares do mundo atualmente e, por isso, existe muito material disponível para tirar todas as suas dúvidas.

 

O impacto da programação no cotidiano médico

Como profissionais da saúde, lidamos com pessoas e suas aflições. Cada paciente é único: um universo em si mesmo. É improvável que um tratamento funcione da mesma forma para todos os pacientes com uma mesma queixa. Pessoas não funcionam como computadores (ainda bem!).

Porém, muitas das soluções que precisamos no nosso dia a dia podem ser sistematizadas nos computadores. Lidar manualmente com dados de pacientes em uma planilha com muitas linhas, colunas e folhas, por exemplo, é desgastante. O médico não tem tempo para isso. Dessa forma, considerando esse exemplo, automatizar a análise de uma planilha permite que você utilize o tempo poupado com esse tipo de trabalho braçal para aumentar a dedicação ao paciente no seu consultório, analisar padrões de queixas para embasar uma pesquisa ou investimento e, até mesmo, produzir gráficos que podem determinar mudanças em políticas de instituições de saúde.

Obs: inclusive, uma das equipes vencedoras do Hackmed Health Hackathon do final janeiro, em São Paulo, a equipe Aira, desenvolveu uma solução justamente para os médicos gastarem menos tempo com prontuários e mais tempo com os pacientes por meio da tecnologia.

Fora todos esses pontos, tem ainda alguns bônus: você diminui sua dependência da tecnologia (meio paradoxal, não?). Mas isso é real: ao invés de você ser escravo do computador, ao programar o computador vira o seu escravo. Basta dizer exatamente o que ele deve fazer (programá-lo). Chega de passar o tempo todo na frente da tela!

Além disso, você aumenta sua independência técnica e passa a compreender como os processos tecnológicos funcionam, mesmo que basicamente (o que já é muito melhor do que não entender nada e ficar na mão de pessoas com esse conhecimento técnico). Sem falar na expansão de horizontes no mundo dos negócios...

 

Conclusão

Chega de tentar convencê-los a aprender essa habilidade. Se eu fosse listar todos os pontos que eu considero importantes, ficaríamos aqui até amanhã. Tentei descrever aqui apenas alguns tópicos que considero mais importantes para convencer vocês, colegas, a aprenderem a programar.

Todos que desejem embarcar na Medicina 4.0 precisam aprender essa skill. Aposto que aprender a programar vai revolucionar sua visão de mundo. Nunca é tarde para aprender algo novo, sobretudo quando esse algo é a ferramenta mais poderosa que já existiu na humanidade.

Academia Médica
Eduardo Pavarino
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Eduardo Pavarino é bacharel em Ciência da Computação pela UNESP e graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Além disso, é Co-fundador da Hackmed Conference & Health Hackathon e escritor do Alpha Squad da Academia.

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