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Motivação como substrato para o ensino médico

Motivação como substrato para o ensino médico

Motivação: estado interno que move os indivíduos a agir em certas direções, manter atividades e tomar decisões. O substrato que move um indivíduo a "correr atrás" de seus objetivos .

O estudo da motivação no processo de ensino-aprendizado teve início há aproximadamente 70 anos. Mais recentemente, os estudos focados em motivação possuem uma abordagem baseada em conceitos neurobiológicos e não somente psico-comportamentais. 

Segundo essas teorias, existem quatro sistemas de interação neural que estão envolvidos no processo de motivação: o sistema ventral estriado, a área do córtex órbitofrontal, o cíngulo dorsolateral e o córtex pré-frontal dorsolateral. Esses sistemas interagem entre si via receptores dopaminérgicos, como sistemas de recompensas. E alguns autores demostraram que a ativação das áreas dopaminérgicas dependem de diferentes estímulos.(1)

Nesse sentido, a motivação é geralmente determinada em algo que é aprendido e como é aprendido, uma vez que aprendemos algo, a motivação é amplamente responsável para continuarmos aprendendo.

A motivação pode ser dividida em motivação intrínseca e motivação extrínseca , a intrínseca compreende aquele fascínio por algo ou alguma coisa que já está genuinamente na mente do indivíduo, por exemplo: querer muito passar na faculdade de medicina. Logicamente esse "querer" vai motivar o indivíduo a estudar. A grande vantagem deste tipo de motivação é que ela é duradoura e auto-sustentável. Em um sentido educacional, para estimular a motivação intrínseca o professor não precisa recompensar ou punir o aluno; o aluno por si só já possui um interesse naquela disciplina. Porém, acomodar-se na motivação intrínseca de todos é uma armadilha perigosa para o educador, pois nem todos os alunos se sentem motivados com aquela disciplina ou com determinado professor, e sabemos que indivíduos são motivados e aprendem por diferentes estímulos (ex: visual ou auditivo).

É aí que entra a motivação extrínseca, a qual compreende a expectativa que o indivíduo coloca em um determinado trabalho ou curso. Portanto, o indivíduo espera se sentir estimulado pelo meio externo para gerar a ação. Este tipo de motivação é a mais manipulável, no bom sentido, pois sabendo trabalhar a motivação extrínseca de cada aluno, aumentamos o interesse e, consequentemente, otimizamos o aprendizado. A motivação extrínseca é onde nós, educadores, atuamos. Inspirar, saber da história de cada aluno, respeitar os diferentes "timings" de aprendizado de cada um é um bom começo para implementarmos em sala de aula. Muitas vezes usar competições, premiações e, mais atualmente, algumas técnicas de gamification é fundamental para estimular esse tipo de motivação, pois, como dito previamente, o sistema dopaminérgico predomina na construção da motivação. Por outro lado, algumas pesquisas indicam que recompensas extrínsecas podem afetar a motivação intrínseca, uma vez que o indivíduo, ao conseguir o prêmio, perde o estímulo para seguir em frente. Aplicando isso em nossas universidades, seria o fato do aluno ter a nota adequada, porém o grau de aprendizado e o aprendizado contínuo é perdido quando chega-se ao objetivo.

O psicólogo Edwaed Deci conduziu uma pesquisa com estudantes em um jogo chamado Soma. Neste jogo, um grupo era pago por cada tarefa resolvida e o outro não. O estudo mostrou que o grupo que era pago parava de resolver as tarefas imediatamente após o seu término ou o pagamento, enquanto o outro grupo continuava a resolver as tarefas até o término da atividade. A conclusão de Edward neste estudo foi que os jogos mantinham inicialmente os estudantes intrinsecamente motivados, porém assim que eram pagos o interesse externo prevalecia.(2)

Como podemos associar esses dados para otimizar o ensino e aprendizado?

Algumas técnicas de motivação podem ser aplicadas facilmente nas aulas: engajar alunos em atividades em grupo, promover desafios em sala de aula, promover inovações na forma de mostrar conteúdos interativos, vivenciar experiências através de exemplos do dia a dia, estimular a individualidade e o auto-conhecimento de cada aluno, fornecer feedbacks de cada atividade individualmente e em particular.

Acredito que nenhuma técnica ou checklist suplante a paixão e dedicação de um professor pelo ensino e por ver seus alunos crescendo, aprendendo e passando adiante o que aprenderam. O maior motivador do professor, sem dúvida, é o sucesso de seus alunos!

O grande desafio hoje, no ensino, nas escolas de medicina e na educação médica continuada é mudar o mindset, para que alunos e professores se engajem em suas atividades e se envolvam de uma forma a promover crescimento de ambas as partes. 

Referências

  1. Kim SI, Neurocientific model of motivation process. Front Psychol. 2013; 4:98
  2. venderblit.edu - guide to motivating students 2016.

 

Leia também os outros artigos da série sobre Ensino Médico, publicado pela Dra. Roberta Fittipaldi.

 

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Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), professora da pôs graduação de Terapia Intensiva do HIAE, cursando doutorado em Pneumologia na Universidade de São Paulo(USP).

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