O delírio é uma síndrome aguda, flutuante e frequentemente subdiagnosticada no pronto-socorro (PS) sobretudo na forma hipoativa. Em atendimentos de emergência em geriatria sua prevalência gira em torno de 10% a 15%, mas pode passar despercebido em até 83% dos casos. As consequências do delírio não reconhecido incluem internações mais longas, piora cognitiva, aumento de custos, queda da função a longo prazo e maior mortalidade em 7, 30 e 180 dias. Nesse contexto, um estudo validou externamente quatro ferramentas de estratificação de risco, com foco em modelos viáveis para uso rotineiro no PS e passíveis de integração ao prontuário eletrônico.
O que o estudo fez
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Objetivo: validar, em um PS acadêmico, quatro ferramentas de risco para delírio desenvolvidas previamente em outros cenários.
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Ferramentas avaliadas:
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REDEEM score
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Mayo Delirium Prediction (MDP) tool
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Kennedy rule
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Zucchelli tool
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Critério de escolha: uso de variáveis disponíveis no momento da visita ao PS (ex.: sinais vitais, motivo da consulta, avaliação de risco de queda, história de convulsões) e/ou dados comumente registrados na primeira hora de permanência; além de incluir um modelo automatizável com boa performance prévia em hospitalizados.
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Desfechos analisados: discriminação (AUROC), calibração (incluindo BS e BSS) e razões de verossimilhança (LR) úteis para decisões clínicas.
Principais resultados
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Desempenho discriminativo global (AUROC): variou de 0,701 a 0,921, indo de “potencialmente útil” (0,60–0,75) a “claramente útil clinicamente” (>0,75).
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Comparação com estudos originais:
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REDEEM: AUROC 0,921 (vs 0,901 no desenvolvimento). Foi o melhor desempenho entre os quatro.
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Corte sugerido: 11 pontos, com LR+ = 9,91 (forte capacidade de “confirmar” delírio em positivos).
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MDP: AUROC 0,898 (vs 0,82 em validação prévia).
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Para probabilidade prevista ≤5%, LR− = 0,07 (boa capacidade de “excluir” delírio em negativos).
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Kennedy rule: AUROC 0,777 (vs 0,77 no original), mantendo desempenho parecido ao derivado.
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Zucchelli: AUROC 0,701 (vs 0,893 no original), com queda de discriminação.
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Por que a ferramenta de Zucchelli caiu?
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Maior uso crônico de psicotrópicos na coorte atual vs original (60,7% vs 34,6%), possivelmente por diferenças de prescrição (EUA vs Itália).
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Risco de sobreajuste no estudo original (seleção de variáveis visando o maior AUROC no treino), ao contrário de abordagens penalizadas (ex.: LASSO) usadas pelos demais.
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Calibração (probabilidade absoluta correta):
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REDEEM teve menor BS e maior BSS, indicando melhor calibração geral.
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REDEEM e MDP mostraram “overcalling” nas curvas, influenciado pela menor prevalência de delírio nesta coorte (3,8%) comparada às originais (≈11,1% e 13,8%).
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Kennedy e Zucchelli exibiram curvas alinhadas entre risco previsto e observado após Platt scaling aplicado aos dados desta coorte.
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Os autores recalibraram REDEEM e MDP à prevalência local (materiais suplementares).
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O que muda na prática do PS
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REDEEM como destaque pragmático: usa variáveis de triagem (sinais vitais, motivo da visita) e dados obtidos na primeira hora (risco de queda, história de convulsões), facilitando implantação imediata.
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MDP com performance semelhante, mas depende de variáveis menos disponíveis no PS (ex.: exames laboratoriais, admissão em UTI), o que reduz a viabilidade para triagem precoce.
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Integração ao prontuário eletrônico: o ideal é que a ferramenta forneça a pontuação/probabilidade exata, não apenas rótulos “alto/baixo risco”, para guiar quem testar e quando retestar, crucial porque o delírio flutua e muitas triagens ocorrem uma vez e cedo na permanência.
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Impacto operacional: a estratificação automatizada pode elevar detecção sem exigir pessoal dedicado, importante diante de superlotação e envelhecimento populacional.
Embora a discriminação seja o indicador mais reportado, calibração determina se a probabilidade prevista reflete o risco real em todo o espectro de pacientes. Neste estudo:
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REDEEM combinou alta discriminação (0,921) com melhor calibração (BS↓, BSS↑).
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MDP também se destacou, mas requer dados que nem sempre estão disponíveis no tempo-zero do PS.
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A prevalência de delírio menor na coorte (3,8%) exige recalibração antes da adoção local, mesmo para modelos com AUROC excelente.
Limitações reconhecidas pelos autores
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Cenário único (PS acadêmico) com maioria de pacientes não hispânicos brancos, pode limitar generalização.
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Diferenças na abstração de variáveis entre estudos; a lista automatizada de psicotrópicos pode não coincidir com a do estudo original de Zucchelli.
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Padrão-ouro de delírio: uso de DTS e bCAM (válidos no PS e aplicáveis por não especialistas), mas não equivalem ao DSM-5; podem perder formas sutis de desatenção e sofrer com barreiras de idioma/letramento.
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Ferramentas comparadas utilizaram critérios diferentes para diagnóstico (ex.: 4AT, CAM), com taxas de detecção distintas.
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Desenho retrospectivo e dados de prontuários eletrônicos, sujeitos a imprecisão ou faltas.
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Probabilidades previstas não existiam para Kennedy e Zucchelli; aplicou-se Platt scaling, calibrando apenas nesta coorte, o que impede comparação direta de calibração com as demais.
Conclusões centrais
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Três das quatro ferramentas (REDEEM, MDP e Kennedy) mostraram boa validade externa no PS.
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REDEEM e MDP apresentaram maior desempenho em discriminação e calibração; ambas são automatizáveis no prontuário, favorecendo triagem direcionada.
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Adoção clínica exige validação externa e recalibração locais, sobretudo diante de prevalências diferentes e mix de pacientes variado.
Próximos passos sugeridos pelos autores
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Estudos multicêntricos e mais diversos, confirmando a performance e a calibração.
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Avaliar desfechos orientados ao paciente após a estratificação (internação, mortalidade, duração do delírio) e intervenções subsequentes de prevenção/tratamento.
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Implantações piloto com integração EHR fornecendo probabilidade contínua, regras de testar/retestar e ajustes dinâmicos da calibração à prevalência local.
Referência:
Bartolacci M, Carpenter KP, Jeffery MM, Mullan AF, Carpenter CR, Bellolio F. Validation of 4 Risk Stratification Tools for Delirium in the Emergency Department. JAMA Netw Open. 2025;8(11):e2540920. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.40920






