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Precisamos falar sobre aborto

Precisamos falar sobre aborto

Precisamos falar sobre aborto. Não sobre a descriminalização do aborto induzido, a interrupção voluntária da gestação, que, por si só, também merece muito destaque e discussão. Mas hoje em especial vim falar de algo que percebo como sendo um tabu ainda maior na nossa sociedade: o aborto que ocorre de forma espontânea, a interrupção involuntária da gestação que ocorre antes da 20ª semana gestacional e/ou quando o feto tenha até 500 gramas de peso e que causa muita dor emocional e física nas pacientes.

A língua inglesa apresenta um termo próprio para diferenciar o aborto espontâneo (Miscarriage) do aborto induzido (Abortion). Por aqui, não temos tal vantagem: quando se fala em aborto já se pensa imediatamente, por maldade ou pura ignorância, no aborto ainda criminalizado. Porém, poucas pessoas sabem que cerca de 20% das gestações resultam em abortamento (este número pode ser ainda maior, já que há a possibilidade de a paciente nem saber que estava grávida quando ocorre o aborto e considerar um sangramento "fora de hora", por exemplo, além de as ocorrências serem subnotificadas). Soma-se a isso o profundo desconhecimento sobre anatomia e fisiologia femininas, o que gera desconforto para as pacientes entre familiares e amigos, ou até mesmo para conversar com amigas que talvez até já possam ter passado por isso. Por fim, muitas mulheres têm receio de falar abertamente sobre isso pelo medo do estigma, julgamento e da culpabilização. "Talvez se você não trabalhasse tanto, isso não teria acontecido". "Talvez se você não estivesse acima/abaixo do peso, você não teria perdido o seu bebê". "Talvez se você não tivesse demorado tanto para engravidar/ talvez se você / talvez..."...

É fato de que existem alguns fatores de risco que podem aumentar a chance de um aborto espontâneo ocorrer: má formações fetais, anomalias anatômicas maternas (leiomiomas, pólipos endometriais, útero septado), traumas, idade materna superior a 35 anos, trombofilias, distúrbios endócrinos, infecções, uso de substâncias como álcool, tabaco e outras drogas, exposição a radiação ionizante, arsênico e poluição atmosférica, entre outros. No entanto, é importante frisar que não há nada que possa ser feito quando um aborto está em curso. A maioria das pacientes apresentam sangramentos, dor abdominal e diminuição de sintomas gestacionais, a depender de quão avançada estava a gestação. Como ferramentas diagnósticas, além do exame físico e anamnese, pode-se utilizar o exame pélvico, o ultrassom e o BetaHCG.

Há, ainda, um caso à parte: a gestação ectópica, que ocorre quando a implantação do embrião se dá em um local que não o endométrio uterino, e sua frequência gira entre 0,6 a 2,4%. Ela pode ocorrer no colo uterino, nas tubas uterinas (mais comum), nos ovários e até na cavidade abdominal. Em grande partes das vezes os sintomas são muito parecidos com os de uma gestação comum, mas, com o crescimento do embrião, podem ocorrer sangramentos e até o rompimento da tuba uterina, no caso de ser uma gestação tubária, o que configura uma emergência cirúrgica na qual deve ser realizada uma salpingectomia.

No começo deste ano eu passei por uma gestação ectópica, descoberta logo no começo por um exame de ultrassom de rotina confirmado por sucessivos BetaHCGs. Sem qualquer fator de risco, descobri que havia ovulado no ovário esquerdo e o embrião se implantou na tuba uterina direita. Um baita azar. CRM positivo, como disse a médica que diagnosticou, pois esse é o tipo de situação tão improvável que só ocorre com médicas e estudantes de medicina. Por sorte fui muito bem acompanhada por meus médicos, que optaram por manter uma conduta expectante, já que eu estava oligossintomática, com pouca dor e náuseas, somente um sangramento que durou mais de um mês. Não precisei utilizar metotrexate ou muito menos me submeter à cirurgia. Recuperada da parte física, ainda hoje tenho que lidar com questões emocionais relacionadas ao episódio. Obtive suporte de pessoas muito queridas, das quais eu não poderia nem ter imaginado. Por outro lado, percebi certo julgamento ou indiferença de familiares. 

Mas por uma coisa eu não passei: a minimização da minha dor. Lembro muito bem no segundo ano da faculdade quando uma professora de patologia falou, para a turma toda "Não sei porque essas mulheres hoje em dia ficam tão mal quando têm um aborto, é a coisa mais natural do mundo, acontece o tempo todo!". Sim, ela está certa em dizer que é comum. No entanto, isso não é nem de perto motivo para anular um sentimento como a dor que uma mulher tem ao perder um filho, especialmente se era uma gestação desejada. Mas mesmo que não fosse.

Por isso, termino meu texto pedindo aos profissionais de saúde e demais leitores: Se informem sobre o assunto, falem sobre o aborto, abram espaço para que suas pacientes/familiares/amigas se sintam confortáveis para pedir ajuda, desabafar e buscar informações confiáveis e consolo quando ocorrer uma perda gestacional. Jamais digam "isso acontece, bola pra frente". Todos nós temos a responsabilidade de tirar o peso e o tabu que existe em cima deste assunto e em cima das mulheres, pois elas não precisam passar por isso sozinhas.

Neste mês da conscientização da perda gestacional, neonatal e infantil, estendo aqui meu abraço e solidariedade a todas as mulheres que já passaram, estão passando ou ainda vão passar por isso. Vocês não estão sozinhas e a dor de vocês importa.

 

"E em cada beijo seu
E em cada estrela do céu
E em cada flor no campo
E em cada letra no papel

Que cor terão seus olhos
E a luz dos seu cabelo
Eu não posso tocá-los,
Mas eu não vou esquecê-los"

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Referências:

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Academia Médica
Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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