Um estudo global publicado em 29 de abril de 2025 na revista Lancet eBiomedicine trouxe um dado alarmante: mais de 356 mil mortes por doenças cardíacas em 2018 podem estar associadas à exposição diária a um tipo específico de ftalato, o di-2-etilhexil ftalato (DEHP) – substância amplamente usada para tornar plásticos mais maleáveis e flexíveis.
A pesquisa, liderada por cientistas da NYU Langone Health, representa o primeiro esforço global para estimar a mortalidade cardiovascular atribuível à exposição a essa substância química. O DEHP está presente em uma variedade de produtos cotidianos, como embalagens de alimentos, equipamentos médicos, cosméticos, detergentes, solventes e tubulações plásticas. Quando esses materiais se degradam, liberam micropartículas que podem ser ingeridas, inaladas ou absorvidas pela pele.
Segundo a análise, o maior impacto foi observado nas regiões da Ásia Meridional, Oriente Médio, Leste Asiático e Pacífico, que concentraram aproximadamente 75% das mortes atribuídas ao DEHP. Apenas a Índia respondeu por 103.587 óbitos, seguida por China e Indonésia. Um dos fatores explicativos apontados pelos autores é o aumento acelerado da produção e uso de plásticos nessas regiões, muitas vezes sem regulamentações rígidas de controle ambiental e ocupacional.
Mesmo após ajuste estatístico por tamanho populacional da faixa etária analisada (homens e mulheres entre 55 e 64 anos), o risco cardiovascular manteve-se elevado nessas regiões, sinalizando níveis mais altos de exposição ambiental aos ftalatos.
Estudos anteriores já haviam associado a exposição ao DEHP a uma série de condições crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2, infertilidade, câncer e distúrbios hormonais. Especificamente no sistema cardiovascular, essa substância está relacionada à resposta inflamatória exacerbada nas artérias coronárias, aumentando o risco de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Além das consequências sanitárias, o estudo estimou que os custos econômicos globais das mortes associadas ao DEHP em 2018 variaram entre US$ 510 bilhões e US$ 3,74 trilhões, reforçando o impacto substancial das doenças associadas à exposição química ambiental em escala global.
Essa não é a primeira vez que os pesquisadores da NYU Langone exploram os efeitos adversos dos ftalatos. Um estudo anterior, publicado em 2021, já havia estimado que esses compostos químicos estariam relacionados a mais de 50 mil mortes prematuras por ano nos Estados Unidos, a maioria também atribuída a doenças cardiovasculares.
A nova análise expande significativamente esse escopo ao incluir dados de mais de 200 países e territórios, utilizando amostras de urina para estimar a exposição ao DEHP, e cruzando essas informações com dados de mortalidade do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), organização referência em métricas globais de saúde.
O Dr. Leonardo Trasande, professor e diretor da Divisão de Pediatria Ambiental da NYU e autor do estudo, destaca que os resultados não provam uma relação causal direta, mas oferecem fortes evidências correlacionais. Segundo ele, é provável que o número real de mortes por doenças cardíacas associadas aos ftalatos seja ainda maior, pois o estudo não considerou outros grupos etários nem outros tipos de ftalatos além do DEHP.
Entre os próximos passos da equipe está a avaliação dos impactos da redução na exposição aos ftalatos sobre a mortalidade global, além da expansão do estudo para outras condições de saúde, como partos prematuros.
Para os autores, os dados são um chamado à ação urgente por regulamentações globais mais rigorosas sobre o uso de ftalatos, especialmente em países com crescimento acelerado na produção de plástico e baixa fiscalização ambiental. “Estamos diante de uma crise de saúde pública silenciosa, alimentada por substâncias que fazem parte do nosso cotidiano”, alerta Trasande.
A publicação reforça a necessidade de estratégias coordenadas entre governos, indústrias e sistemas de saúde pública para limitar a exposição populacional a compostos químicos com reconhecido potencial tóxico, a fim de proteger a saúde cardiovascular da população global.
Referência:
NYU Langone Health / NYU Grossman School of Medicine. "Heart disease deaths worldwide linked to chemical widely used in plastics." ScienceDaily. ScienceDaily, 29 April 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/04/250429103143.htm>.






