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Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Mutismo Seletivo: Estudo de Caso

Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Mutismo Seletivo: Estudo de Caso

Enquanto educadora do segmento da Educação Especial, nos últimos anos, nos meus atendimentos tenho identificado alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que apresentam várias outras doenças associadas (comorbidades), assim como diversos problemas comportamentais, além do conjunto aos sintomas determinantes do TEA.

O termo “Espectro” no TEA, segundo pesquisas indica grande abrangência de vários níveis de comprometimentos. Com a nova versão da classificação da CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), o TEA passou a receber um foco mais específico para a deficiência intelectual e o prejuízo na linguagem.

Leia também: Nova classificação de doenças, CID-11, unifica Transtorno do Espectro do Autismo

Gostaria de compartilhar uma experiência de um estudo de caso de um aluno, onde proponho realizar uma pequena revisão bibliográfica, integrada a uma experiência profissional que vivencio para análise de alguns estudos recentes a respeito do tema: “mutismo seletivo”. 

Para Gil (2009), assim como para (SELLTIZ et al.,1967), o estudo de caso tem como proposito a formulação de um problema para investigação mais aprimorada ou para construção de hipóteses, no envolver geralmente a revisão da literatura, o estudo de experiências pessoais e a análise e exemplos que estimulam a compreensão.  

Apresentação do caso

Além dos atendimentos semanais pedagógicos do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que é ofertado no contraturno para os alunos do segmento da Educação Especial na rede pública do estado de SP, existem os atendimentos de observações para cada aluno no período de aula de sala regular (comum).

 Por meio dessas observações, um aluno de 13 anos, diagnosticado com autismo chamou muito atenção.  O aluno e deixou de falar na escola, em sala de aula às vezes se comunica por gestos, códigos ou desenhos com os professores e amigos. Fala expressamente comigo e nos meus atendimentos, ou quando identifica ser necessário em casa ou com alguns amigos entonando a voz muito baixa.

Após pesquisas e revisão de algumas bibliografias que pudessem me auxiliar a obter mais informações e conhecimentos sobre o comportamento da ausência de fala desse aluno, constatei que poderia ter desenvolvido o transtorno denominado de “mutismo seletivo”.

No caso desse aluno, conversei com os familiares e solicitei que os mesmos marcassem uma consulta com o médico. A consulta foi realizada e o médico solicitou um relatório pedagógico para especificar com mais detalhes sobre a situação que estava acontecendo no ambiente escolar, assim como outros fatores relevantes que pudessem auxilia-lo nessa investigação. Relato a vocês que foi a primeira vez que recebi esta solicitação médica. O relatório foi realizado e entregue ao médico que solicitou encaminhamento para o psicólogo especialista em ABA (Análise do Comportamento Aplicada).

Sendo assim, gostaria de compartilhar o breve estudo sobre “mutismo seletivo”,  para que possamos juntos debater e ampliar conhecimentos sobre esse transtorno indicado como raro, que precisa ter maiores evidências de estudos que poderão contribuir para ampliar novas interpretações e auxiliar nos diagnósticos a respeito do assunto.

Mutismo seletivo

Para falar de mutismo seletivo, recorremos ao DSM – 5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais),  um guia para apresentar características e sintomas dos transtornos mentais, escrito   pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), que reúne as maiores autoridades em transtornos mentais no mundo. A versão foi publicada em maio de 2013, e é usada por profissionais de psicologia, psiquiatria, nutrição, neurologia, psicopedagogia, entre outros.

Segundo (Souza e Paula, 2021), de acordo com o DSM – 5 (APA, 2014), o mutismo seletivo  envolve o fracasso persistente para falar em situações sociais específicas nas quais existe a expectativa para tal, como por exemplo: na escola, apesar de o fazê-lo em outras situações (APA, 2014).

Tal fracasso não se deve a um desconhecimento ou desconforto com o idioma exigido pela situação social. O transtorno interfere significativamente na realização educacional ou na comunicação social. Sua duração mínima é de um mês (não limitada ao primeiro mês de escola). Não se trata de um transtorno da comunicação, como o transtorno da fluência com início na infância, nem ocorre exclusivamente durante o curso de transtorno do espectro autista, esquizofrenia ou outro transtorno psicótico.

Dados do DSM – 5 (APA, 2014) mostram que a prevalência do transtorno de mutismo seletivo varia entre 0,03 e 1% da população, o que o caracteriza como raro. A prevalência parece não diferenciar sexo ou raça/etnia, e manifesta-se com maior frequência em crianças menores.

O mutismo seletivo já é considerado, por alguns estudos (HUA, MAJOR, 2016; RIBEIRO, 2013), um tipo de fobia social.  Além disso, o mutismo seletivo e é considerado uma condição debilitante, causando interferências nas atividades educacionais ou de comunicação social. São crianças notadamente sensíveis, tímidas, ansiosas, bem como negativistas, opositoras, manipuladoras e controladoras. Trata-se de um transtorno raro, pesquisado há mais de um século e que não possui expressivo número de investigações sistemáticas. O transtorno tem sido relacionado a um excesso de timidez, ansiedade e comportamento opositor. (Souza e Paula, 2021).

 Pinheiro (2022), pesquisa sobre “isolamento social e ansiedade na adolescência” e destaca que os transtornos de ansiedade se diferenciam do medo e da ansiedade adaptativa por serem excessivos ou persistirem além dos períodos apropriados ao nível de desenvolvimento. Alguns deles são:

• Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS);

• Mutismo seletivo (MS);

• Fobia específica (FE);

• Transtorno de Ansiedade Social (TS);

• Transtorno de Pânico (TP);

• Agorafobia (A);

 •Transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

A autora relata que (Asbhar, 2004) afirma que, em crianças e adolescentes, os quadros mais frequentes são o transtorno de ansiedade de separação (TAS), com prevalência em torno de 4%, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG; 2,7 a 4,6%) e as fobias específicas (FE; 2,4 a 3,3%).

Sendo assim, podemos identificar que o mutismo seletivo não é um transtorno determinante para as pessoas com TEA. E, pelos índices apresentados acima, também não é um transtorno de ansiedade que possui um nível elevado entre crianças e adolescentes.  Confirmando como um transtorno raro que precisa ter maiores evidências de estudos.

Diante dessa explanação, venho novamente chamar a atenção sobre a atuação das equipes multiprofissionais que precisam trabalhar de forma integrada em prol aos atendimentos das pessoas com deficiência, aqui em questão a abordagem de pessoas com TEA que precisam ser mais interpretadas e assistidas com diagnósticos amplos e assertivos a respeito da situação cognitiva, sensorial, comportamental, física, motora e escolar, por meio de testes e avaliações individualizadas.

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Por fim, vejo essa ação como necessária para que possamos conhecer, aprimorar e debater esse assunto e outros que precisam ser bem mais esclarecidos e interpretados pelas famílias, pela escola para compor o relatório pedagógico, tais informações subsidiarão o planejamento estratégico com mais subsídios para uma melhor qualidade de vida para essas pessoas.


Referências

1.DE SOUZA, Danielle Castelões Tavares; DE PAULA, Leila Regina d'Oliveira. Intervenções para casos de crianças e adolescentes com mutismo seletivo. Revista Educação Especial, v. 34, p. 1-29, 2021.

2. GIL, Antonio Carlos. Estudo de Caso. Fundamentação Cientifica – Subsídios para coleta e análise de dados – como redigir o relatório. São Paulo: Atlas, 2009.

3. PINHEIRO, Andréa Maria da Silveira Goldani et al. Ansiedade e isolamento social na adolescência: como manejar? Recisatec-Revista Científica Saúde E Tecnologia-Issn 2763-8405 v. 2, n. 2, p. e2276-e2276, 2022.


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Maria de Lourdes  de Moraes Pezzuol
Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol Seguir

É professora do AEE para alunos com autismo na rede pública de S.P, licenciada em Educação Física, mestrado em Educação, especialista em autismo, neuropsicopedagogia, psicomotricidade, ABA e brinquedista pela ABBri e gestora de uma Ecobrinquedoteca

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