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Para investir na saúde digital, tecnologia não é o bastante

Para investir na saúde digital, tecnologia não é o bastante

A pandemia impulsionou uma tendência que já estava crescendo: a saúde digital ou tecnologia na saúde (Healthtech).

Antes, o setor de Healthtech era visto muitas vezes pelas empresas como um caminho conveniente para economizar nos custos de planos de saúde. No entanto, se percebe cada vez mais a necessidade dos serviços que são prestados pelas Healthtechs. A telemedicina está de prova!

No futuro, os consumidores, tendo visto como os serviços de telemedicina podem ser fáceis para recargas de receitas, bem-estar mental e outras áreas, esperam por novas opções na área telemedicina e toda tecnologia que vem junto a ela.

Leia também: Saúde digital ou e-Saúde?

Quem não tinha notícia do “movimento”, foi exposto a uma carga gamma sobre tecnologias em saúde. Segundo um relatório do Advisory Board,  em 2020, o setor da telemedicina tornou-se a primeira parada para os serviços primários e especializados entre a geração X e os mais jovens.

Além disso, a maioria dos idosos se acostumou ao uso de wearables para gerenciamento de cuidados crônicos, com apenas 16% dos idosos afirmando que a tecnologia é uma barreira ao uso da telemedicina.

Diante da perspectiva de crescimento, cada vez mais surgem grupos de grandes empresários e investidores na saúde,  interessados em entrar no setor. Neste cenário, são desafios: analisar a nova perspectiva de investimento, basicamente, como se o setor da tecnologia encontrasse o setor da saúde.

Na prática, analisar “um setor encontrando o outro” minimiza toda a proposta de valor de um novo setor, que tem muito de tecnologia e muito de saúde, mas deixa de evidenciar características específicas dele.

O número de novas startups, ventures e projetos de Healthtech com problemas financeiros, muitas com encerramento de suas atividades, mesmo sob tutorias de grandes aceleradoras, destaca esse viés no momento da sua análise de viabilidade financeira.

Por isso, é importante destacar novas perspectivas no formato de análise. Golden Circle, de Simon Sinek, é uma metodologia que não é tão nova e  ajuda empresas e líderes a encontrarem o seu propósito pata geração de impacto. O método auxilia empresas a fugirem do padrão de desenvolvimento de potencial de fora para dentro, deixando de ter como única motivação o ganho de dinheiro. Assim, o lucro torna-se  consequência de um serviço, projeto ou produto bem-feito.

O que o conceito aborda é que empresas e líderes devem pensar, agir e comunicar de dentro para fora, partindo do centro do círculo em direção às suas extremidades. Ou seja, primeiro  é importante que as pessoas saibam o porquê criar uma empresa e qual o seu propósito. Depois, como vão fazer isso.

Neste sentido, o Golden Circle também é útil já que foi difundido para outro aspecto na construção do gerenciamento de projetos. Ao pensar no mundo dos investimentos e no nicho Healthtech, é importante modificar um pouco essa metodologia e tentar aplicar essa atualização para maximizar o retorno sobre o investimento (ROI).

Por isso, lembre-se: comece sempre  “porquê” e agora. E não necessariamente na mesma ordem, inclua o planejamento do "como" para conquistar o  “o que”.

Há  de tecnologias na saúde para escolher, mas muitos investidores e empreendedores tradicionais que se perguntam "Em que tecnologia devo investir?” e “Em que tecnologia devo focar meu negócio?" estão concentrando na pergunta errada.

Quando usada em outra área, a tecnologia possibilita a estratégia. Mais uma vez, caso não tenha ficado claro: é uma ferramenta e não uma solução autônoma, livre, independente e soberana de si.

3 perguntas para construir uma estratégia de sucesso

Quer construir uma estratégia de sucesso que aproveitar de modo efetivo a tecnologia na saúde? Comece por três perguntas direcionadas. São elas:

1.Por que você quer empreender ou investir em Healthtech?

Não fique sobrecarregado com plataformas brilhantes, complexas e miraculosas ou  pensando em qual concorrente está investindo em determinadas plataformas de vídeo.

Em vez disso, comece esclarecendo por que você está investindo em Healthtech. Atraia stakeholders clínicos, operacionais, financeiros e de tecnologia para identificar as principais iniciativas e desafios estratégicos que as Healthtech podem abordar.

Minha impressão é que, naturalmente, com o passar do tempo os reports sobre Healthtech disponíveis ficam menos tendenciosos, apesar de que uma investigação e apreciação críticas são mandatórias, pelo menos até o momento.

Através do mapeamento da jornada do paciente e impacto de valor, busque sempre atrair consumidores e melhorar a conveniência do paciente, o acesso ao diagnóstico (precoce se possível) e tratamento no momento certo.

Ao potencializar o alcance, faça um mapeando da jornada do profissional de saúde, possibilitando um aumento no acesso do profissional de saúde a conhecimentos especializados para consultas de pacientes. Assim, você também melhorará a qualidade clínica e a utilização adequada dos produtos e serviços oferecidos, viabilizando um menor número de (re)internações desnecessárias, reduzindo o custo global.

Consequentemente, a eficiência do processo também ficará muito melhor. Você pode ampliar o acesso e expandir a capacidade do profissional de saúde por meio de eficiências operacionais aprimoradas.

2. Quais tecnologias você precisa para atingir seus objetivos?

Nem todas as plataformas de tecnologia são adequadas para todos os objetivos estratégicos. Vamos tomar como base, por exemplo, a telemedicina, que obteve uma alta demanda na pandemia.

Na hora de escolher  uma plataforma com essa finalidade, é importante:

• Avaliar as ofertas dos fornecedores com base em sua capacidade de fornecer os resultados específicos que você procura;

• Oferecer visitas virtuais diretas ao paciente por telefone ou vídeo; permitir consultas especializadas de profissional a profissional (clínico a cardiologista, neurologista a endocrinologista) com o aplicativo de smartphone protegido pela HIPAA (Health Insurance Portability and Accountability Act);

• Entender quais são os  pacientes que precisam de monitoramento de acordo com a especialidade. Exemplo: pacientes com insuficiência cardíaca com maior risco de complicações e precisam de telemonitoramento;

É possível pensar em exemplos variados. Tudo depende exclusivamente da primeira pergunta. Para  cada proposta de valor clara e objetiva, um universo de possibilidades será aberto nessa segunda pergunta.

3. Como você pode implementar algo de forma assertiva para ficar mais próximo do sucesso?

As iniciativas de Healthtech só serão bem-sucedidas se forem sustentáveis ​​ao longo do tempo. Por isso,  é importante você entender como implementar um projeto a longo prazo. A seguir, listei algumas dicas que podem te ajudar a pensar neste questionamento com ações práticas:

• Faça um orçamento para os custos operacionais de sua plataforma, considerando os requisitos de parceria de seu fornecedor e sistematicamente implemente e dimensione por etapas;

• Utilize o exemplo anterior da telemedicina como inspiração para identificar bloqueios comuns no seu projeto. Por exemplo: alguns planos de saúde não estão dispostos a cobrir as visitas virtuais.  

Assim é necessário esclarecer as oportunidades de reembolso e manter as metas financeiras claras e o balanço patrimonial transparente. Outra situação: os profissionais  de saúde não tem suporte dedicado para ajudar a solucionar problemas técnicos, nem conhecimento suficiente para tal.

• Avalie os requisitos de manutenção e contrate uma equipe apropriada com foco na prevenção de problemas. Não se esqueça: a má gestão de dados reduz o tempo-resposta do tratamento do paciente. Por isso, determine as demandas de treinamento de protocolos clínicos e assistenciais.

• A demora no tempo de resposta aos problemas do seu projeto é um problema que gerar várias consequências negativas. Ao trabalhar com telemedicina, por exemplo, a falta de contato com os pacientes é negativa e uma das soluções, neste caso, é desenvolver fluxos de trabalho clinicamente mais  dinâmicos e amigáveis ao paciente e profissionais de saúde.

O que esperar da saúde digital?

As mudanças ocasionadas pela tecnologia e pela saúde digital  nos sistemas de saúde em plena pandemia são marcadas por duas características: turbulência e emoção. 

Particularmente, acredito que mudança está sobre todos nós e que para  alcançaremos mais eficiência e inovação que  poderíamos imaginar há apenas alguns meses.

O que é anterior vai continuar, mas de um modo diferente. A necessidade de instalações físicas nunca desaparecerá, mas a incorporação da Healthtech pode ajudar no dimensionamento correto de futuros projetos na otimização do ROI de uma organização.

Para tudo isso se concretizar, precisaremos dos empreendedores e investidores visionários como stakeholders e parceiros de caminhada.

Com um planejamento correto e assertivo, podemos transpor etapas, construir a analisar o mais simples primeiro e proporcionar cuidados de saúde melhores e mais acessíveis para os pacientes.

Por fim,  acredito que o implante do "porquê" no valor  da experiência do cuidado deve ser o guia dos investidores e empreendedores da área. O propósito como primeira linha a ser analisada vai trazer novos, surpresos e entusiasmantes resultados no balanço financeiro do “ativo”.


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Albert Bacelar de Sousa
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Médico Intensivista, Professor Universitário, Coordenador UTI, Instrutor Simulação Realística, Programador Python, Professor Health Design Thinking, MBA Gestão em Saúde, Educação, Empreendedorismo e em Tecnologias em Saúde, Ex-Mergulhador de Resgate

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