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A importância da pesquisa básica em Biologia Molecular para o câncer de mama

A importância da pesquisa básica em Biologia Molecular para o câncer de mama

O câncer de mama é o de maior incidência no mundo e a primeira causa de morte por câncer em mulheres. No Brasil, foram estimados, para cada ano do triênio 2020-2022, aproximadamente 61 novos casos de câncer de mama a cada 100 mil mulheres.

Essa é uma doença complexa que apresenta características histopatológicas distintas, prognósticos diferentes, respostas terapêuticas variadas além de variabilidade genética. Se diagnosticado e tratado precocemente exibe altas taxas de sobrevida, uma vez que o diagnóstico tardio é um dos responsáveis pelo elevado índice de mortalidade observado.

Políticas públicas como a mamografia juntamente com análises histopatológicas e moleculares têm como objetivo o diagnóstico precoce, prognóstico e abordagem terapêutica da doença.

É importante ressaltar que o câncer é uma doença multifatorial e diferentes fatores genéticos e ambientais podem contribuir para seu desenvolvimento. Assim, a geração de conhecimento é a principal abordagem para seu combate.

Se pensarmos no uso de determinada molécula na clínica, sabemos que testes in vivo em animais e testes clínicos em seres humanos foram previamente realizados. No entanto, para que essas etapas sejam alcançadas é necessário o desenvolvimento de uma pesquisa básica, o primeiro passo na análise de biomarcadores ou fármacos cujo objetivo final é sua segura aplicação na clínica.

A pesquisa básica engloba a avaliação dos mecanismos de ação de uma molécula e o entendimento de seu papel a nível celular. À primeira vista, pode ser difícil enxergar uma aplicabilidade direta desse tipo de pesquisa na rotina clínica, mas apenas com a produção de conhecimento é possível desenvolver hipóteses e objetivos claros para a pesquisa aplicada.

E a biologia molecular?

Essa área da biologia vai de encontro com o objetivo central das pesquisas básicas na área da saúde, ou seja, compreender a doença a nível molecular. Lembrando que o câncer de mama é uma doença heterogênea, fica claro que a geração de conhecimento sobre sua biologia e evolução mostra-se essencial. Esse caminho possibilita a identificação dos diferentes tipos de câncer de mama e consequentemente melhor abordagem para cada paciente visando maiores taxas de sobrevida.

Por exemplo, um tumor mamário com amplificação do gene ERBB2 (HER2) ou superexpressão de sua proteína é direcionado ao tratamento alvo com anticorpo monoclonal anti-HER2, que ao interagir com a molécula HER2 retarda a proliferação das células tumorais. A implementação desse tratamento na clínica só foi possível devido a pesquisa básica de biologia molecular sobre o papel de HER2 na célula e sua contribuição no desenvolvimento tumoral.

Além disso, painéis que analisam conjuntos de genes auxiliando na decisão terapêutica em câncer de mama como Oncotype DX®, MammaPrint® e Prosigna®, também tiveram seu desenvolvimento por meio de uma abordagem inicial em biologia molecular.

Além desses exemplos, diversos outros biomarcadores e terapias do câncer de mama tiveram seu papel explorado na pesquisa básica sendo essenciais para as consideráveis taxas de sucesso no manejo desses pacientes.

Portanto pesquisa básica e biologia molecular andam de mãos dadas na busca por biomarcadores oncológicos. Além disso, os avanços nas técnicas moleculares vêm contribuindo para geração de conhecimento não só nessa área, mas também em diversas outras especialidades médicas.

Como bióloga e atuando na área da pesquisa básica em câncer de mama desde o início da graduação, ou seja, há quase dez anos, vejo com clareza sua importância. No entanto, muitas vezes é possível perceber uma carência por parte da equipe médica em compreender a importância não só da pesquisa básica, mas também da própria biologia molecular e suas técnicas. Na maioria das vezes refletindo em dúvidas na hora de solicitar exames moleculares assim como interpretar seus resultados.

Por que solicitar um exame molecular? Qual seria mais adequado solicitar em cada situação? Seria melhor avaliar um gene individualmente ou um painel? O que o resultado realmente quer me dizer? Por que um paciente responde melhor a determinada terapia em comparação a outra?

Tais questionamentos são naturais e por isso é essencial a comunicação e discussão entre equipe médica e especialistas em biologia molecular. Um tem muito a aprender com o outro!

Muito já foi pesquisado e desenvolvido, mas há ainda mais a ser explorado. A evolução no tratamento desse e outros tipos de câncer é indiscutível, mas a pesquisa básica ainda tem muito a descobrir.

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Referências

SUNG, H. et al. Global Cancer Statistics 2020: GLOBOCAN Estimates of Incidence and Mortality Worldwide for 36 Cancers in 185 Countries. CA Cancer J Clin, v. 71, n. 3, p. 209-249. 2021. Doi: 10.3322/caac.21660. Epub 2021 Feb 4.

INSTITUTO NACIONAL DE CANCER. Estimativa 2020. Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde. 2019. Disponível em <https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/estimativa-2020-incidencia-de-cancer-no-brasil>

 


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Tayana Schultz Jucoski
Tayana Schultz Jucoski Seguir

Bióloga, mestre e doutora em Genética. Atua na área de biologia molecular em oncologia.

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