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Afinal, qual é o impacto da arte e literatura na saúde?

Afinal, qual é o impacto da arte e literatura na saúde?

Você já pensou sobre o impacto da arte e da literatura na saúde? Neste texto, te convidamos a embarcar numa viagem ao longo do tempo para refletir sobre o assunto. 

 

 

Será que é possível mensurar o  impacto da arte e da literatura na saúde? Como a pintura, a ilustração, a música e outras expressões artísticas estão relacionadas ao processo saúde e doença? Responder essas questões não é uma tarefa tão simples (e talvez a gente nem consiga fazer isso ao longo do texto), mas temos que concordar com o poeta Ferreira Gullar que diz o seguinte: "A arte existe porque a vida não basta”.

Inclusive, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece em um relatório publicado em 2019  que a arte tem um papel essencial não só na prevenção de doenças, como também na promoção da saúde e do bem-estar, além do tratamento de enfermidades. 

Não é à toa que dizem por aí que a arte cura. Para quem escreve, por exemplo, colocar os sentimentos no papel soa como um desabafo e há quem diga que escrever é terapêutico e dá significado à vida. Para quem vive de música, cantar é fazer a alma dançar — você provavelmente já deve ter ouvido a famosa frase “quem canta, seus males espanta”, acertamos? (se tiver tempo, vale a pena escutar a canção da eterna Carmen Miranda para entrar no clima). 

Em linhas gerais, qualquer expressão artística é um ato de colocar para fora o que muitas vezes nos adoece por dentro ou até mesmo transformar sentimentos como luto, tristeza, amor, paixão, fúria e indignação em luta, significado e inspiração.

Para refletir sobre esse assunto, convidamos você a embarcar em uma verdadeiro tour no mundo das artes e conferir de pertinho a história de alguns nomes que se eternizaram na história por tecer conexões entre  arte e literatura como processo de cura. Vamos nessa? Busque um lugar confortável, ajuste a postura e let's go!

A arte e a literatura como  arteterapia na saúde mental

Não há como falarmos sobre o impacto da arte e da literatura na saúde mental sem recorrermos à psiquiatra Nise da Silveira. Pioneira na terapia ocupacional, Nise foi uma brasileira muito à frente do seu tempo e tem uma trajetória marcante não só por ter sido a única mulher a se formar como médica em uma turma de 158 alunos, na Faculdade de Medicina da Bahia, mas também por ter revolucionado os métodos de tratamento para pessoas em sofrimento mental.

Enquanto seus pares acreditavam que o melhor caminho para tratar pessoas em surtos psicóticos e outros quadros psiquiátricos e/ou psicológicos, com eletrochoque e isolamento, Nise acreditava na importância de enxergar o paciente além do seu diagnóstico e na potência da arte para a humanização do tratamento. Ela chegou a ser perseguida e presa por se contrapor as práticas médicas sugeridas e morreu, aos 94 anos, firme no seu propósito.

Não é à toa que seu legado continua vivo até hoje, sobretudo nos propósitos que movem os  movimentos antimanicomiais.

 

Além de acreditar na potência da arte e da literatura por meio da arteterapia, a psiquiatra fundou o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), em 1952, na cidade do Rio de Janeiro. O museu é conhecido até hoje como um símbolo que ilustra não somente a conexão prática entre a saúde mental e a arte como revela verdadeiros artistas que, em algum momento da vida, foram taxados como “loucos” e tiveram suas vozes e sua humanidade sequestradas. 

Atualmente, o acervo conta com mais de 352 mil obras divididas em produções textuais, poemas, telas pintadas, modelagens, papéis, esculturas, dentre outras.  

Além do Engenho de Dentro: mais do que pacientes, artistas!

Entre os pacientes que demonstraram seu talento no ateliê criado por Nise, a história de Emygdio de Barros é uma das diversas trajetórias que nos provam o quão importante é acreditar na humanização e como a arte é potente para a saúde e para o sentido da vida.

Desde a infância, Emygdio tinha habilidades manuais notáveis. Foi o primeiro da classe na escola primária e depois dela e além de ter se formado no curso técnico em torneiro mecânico, também ingressou no Arsenal da Marinha e devido ao seu talento chegou a ir para a França para estudar durante dois anos. No retorno ao Brasil, Emygdio abandonou o emprego e começou a andar pelas ruas até ser internado em um hospital psiquiátrico da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.

Foto: Centro Cultural do Ministério da Saúde

Foto: Divulgação/ Centro Cultural do Ministério da Saúde

O artista passou mais de 20 anos da sua vida em confinamento, sendo transferido, em 1944 para o hospital de Engenho de Dentro (o hospital onde Nise atuou). Somente em 1947, o paciente começou a participar do ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional e, ali, desabrochou o talento que sempre esteve com ele, mas que havia sido apagado em meio à tanta repressão.

Foto: Divulgação/ Centro Cultural do Ministério da Saúde

Emygdio deixou no acervo do museu cerca de 3.330 obras e foi reconhecido por artistas brasileiros como Mário Pedrosa e Abraham Palatnik que o visitavam sempre. Ele chegou a ter alta do hospital em 1950 e foi internado novamente em 1965 em outra clínica onde se recusava a pintar pelo fato de não ter inspirações como tinha no Museu do Inconsciente. Depois disso, o artista voltou a pintar no ateliê até seu falecimento, em 1986, aos 96 anos.

Foto: Divulgação/ Centro Cultural do Ministério da Saúde

Adelina Gomes, pintura, escultura e mulher negra foi uma das mulheres que foi internada aos 21 anos, em 1937 no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro — onde permaneceu até 1984, ano em que faleceu.

De origem humilde, Adelina era filha de camponeses, muito apegada pela mãe a ponto de se frustrar por conta de um relacionamento que não foi aceito pela mãe, aos 18 anos. Ela chegou a estrangular uma gata de estimação depois desse episódio foi para o hospital onde era considerada agressiva. Quando passou a frequentar o ateliê, Adelina se transformou e tornou-se uma das principais artistas, deixando um legado de mais de 17.500 pinturas e esculturas produzidas. Confira uma pequena amostra do trabalho da Adelina:

Foto: Divulgação/ Centro Cultural do Ministério da Saúde

Até hoje, Adelina é lembrada e seus trabalhos inspiram reportagens, exposições, filmes, documentários e publicações científicas.

 

A literatura como um grito pela vida e alívio da dor

Fazer literatura é um grito de liberdade para muitas pessoas e revelar aspectos pessoais da vida por meio dessa arte exige coragem. Por isso, lembramos com muito carinho da americana Kay Redfield Jamison que é psiquiatra, autora do livro “Uma Mente Inquieta” e autoridade internacional em transtorno bipolar do humor.

A obra de Kay é autobiográfica. Ou seja, além de ser uma das maiores especialistas em saúde mental, a médica também vive com transtorno bipolar. Ao longo do livro, ela relata várias experiências pessoais, em passagens que despertam sentimentos de empatia, humor, identificação e tristeza. A narrativa é surpreendente e, literalmente, quebrou muitos tabus sobre o tema. Inclusive, a autora conta que decidiu contar sua história para desmistificar o sofrimento mental que ainda é muito estereotipado e faz com que muitas pessoas deixem de buscar ajuda devido ao preconceito e a discriminação social.

Para continuar firme em sua jornada e provar que é possível viver uma vida além do CID e que uma classificação não define um ser humano, Jamison escreve sobre sua rotina profissional, sobre sua família, sobre sua carreira e sobre como a literatura, os esportes e seus hobbies são paixões que  a ajudam viver, se aceitar e ajudar outras pessoas que sofrem com crises alternadas de depressão, euforia e psicose.

Assim como Kay, é interessante pensarmos no impacto da arte e da literatura na saúde a partir de obras como o Canto dos Malditos do escritor curitibano que também foi ativista do Movimento da Luta Antimanicomial, Austregésilo Carrano Bueno. O autor faleceu em 2008, mas sua obra, de cunho autobiográfico, evidencia o quanto a literatura é importante para se libertar das dores e dos traumas.

No caso dele, o livro reúne diversas experiências ruins do artista em uma instituição psiquiátrica após uma internação sem uma análise detalhada que resultou em  muito sofrimento e violação de direitos. O livro inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças, produção brasileira, lançada em 2000, com direção de Laís Bodansky.

Afinal, qual o impacto da arte e da literatura na saúde?

Poderíamos contar a história de muitos escritores, diretores de cinema, atores e músicos que possuem uma forte relação com a arte enquanto processo de cura e busca pela saúde. Afinal, não é incomum encontrar histórias incríveis de artistas que estão relacionadas às questões de saúde que inclusive inspiram essas produções. No entanto, nosso tour cultural é curto e está chegando ao fim.

Antes de desembarcar e nos dizer o que você pensa sobre o assunto, separamos um trecho da música AmarElo, lançada pelo rapper Emicida, em 2020 (em  meio à pandemia). A canção virou um hit, alcançando mais de 12.642.268 visualizações no Youtube ou, nas palavras do artista, "um grito de socorro”:

[...]“Permita que eu fale

Não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência

Me resumir a sobrevivência

É roubar o pouco de bom que vivi” [...]

 

Por fim, acreditamos que os impactos da arte e da literatura na saúde são múltiplos, principalmente para a saúde mental da pessoa que enfrenta alguma questão emocional ou que está passando por um momento difícil como a luta contra um câncer ou até mesmo a recuperação pós-COVID-19, por exemplo.

E você? O que pensa sobre o assunto enquanto profissional da saúde? Para a comunidade, sua opinião é importante. Deixe seu comentário!

 

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Referências

1.CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde. O Museu Vivo do Engenho de Dentro. Disponível em: http://www.ccms.saude.gov.br/museuvivo/index.php. Acesso em 20/02/2022.

2.CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde. Cinco artistas do engenho do Dentro. Disponível em:http://www.ccms.saude.gov.br/cincoartistas/emygdio.php.Acesso em 20/02/2022.

3.CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde. Cinquentenário Museu de Imagens do Consciente. Disponível em: http://www.ccms.saude.gov.br/cinquentenariodomuseu/adelina-gomes.php.Acesso em 20/02/2022.

4. JAMISON, Kay Redfield. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 267p.

5. MAGALDI, Felipe. A metamorfose de Adelina Gomes: gênero e sexualidade na psicologia analítica de Nise da Silveira. Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro), p. 119-140, 2018. Disponível em: SciELO - Brasil - A metamorfose de Adelina Gomes: gênero e sexualidade na psicologia analítica de Nise da Silveira A metamorfose de Adelina Gomes: gênero e sexualidade na psicologia analítica de Nise da Silveira. Acesso em 20/02/2022

6. MAGALDI, Felipe. Mania de liberdade: Nise da Silveira e a humanização da saúde mental no Brasil. SciELO-Editora FIOCRUZ, 2020.

7. FANCOURT, Margarida; FINN, Saoirse. Quais são as evidências sobre o papel das artes na melhoria da saúde e do bem-estar? Uma revisão de escopo (2019). 2019, World Health Organization. Disponível em: 

https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/329834/9789289054553-eng.pdf. Acesso em 20/20/2022

7.Revista Galileu. Quem foi Nise da Silveira, psiquiatra que humanizou os tratamentos no Brasil. Disponível em:  https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/09/quem-foi-nise-da-silveira-psiquiatra-que-humanizou-os-tratamentos-no-brasil.html. Acesso em 20/02/2022.

 

Academia Médica
Bruna Martins Oliveira
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Jornalista graduada pela PUCPR e Mestranda em Informação e Comunicação em Saúde pelo PPGICS da Fiocruz. Atualmente, pesquiso sobre saúde mental, mulheres e redes de apoio e comunicação.

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