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Gabinete de Curiosidades Médicas: Cortem-lhe a cabeça! Parte I

Gabinete de Curiosidades Médicas: Cortem-lhe a cabeça! Parte I

Bem-vindos à série "Gabinete de Curiosidades Médicas"! Aqui você vai encontrar fatos curiosos, sombrios ou interessantes sobre a história da medicina e das artes. Prepare-se para um encontro inesperado com médicos, escultores, pintores, filósofos que se unem para contar um pouco das inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

Vamos lá?

Nada pior do que levar o crédito por algo que você não fez ou criou. Pior ainda quando esse algo foi responsável por fazer milhares de cabeças literalmente rolarem. Na virada do século XVIII para o XIX, o médico francês Joseph-Ignace Guillotin esteve imerso em todo o clima revolucionário e trabalhou ativamente em seus bastidores. 

Um dos grandes papéis desempenhados por Guillotin foi o de incentivador da campanha de vacinação da população francesa contra a varíola, iniciada por Napoleão Bonaparte no final do século XVIII. O papel dele foi tão importante que em 1800 ele foi convidado para ser o presidente do chamado Comitê da Vacina, recebendo apoio até mesmo do Papa Pio VII em sua campanha.

Mas não foi por isso que Guillotin acabou por se tornar enormemente famoso. O motivo era bem mais sangrento. O médico, mesmo declarando-se contra a pena de morte, defendeu que todos aqueles que fossem condenados à morte deveriam ser executados da forma mais rápida e indolor possível. A melhor forma de fazer isso, de acordo com os meios da época, seria por meio de uma decapitação que fosse rápida e tecnicamente limpa.  

Na época, os nobres, quando condenados à execução, tinham a pompa de terem a cabeça arrancada por um golpe (ou mais) de sabre, uma arma considerada digna da nobreza. Enquanto isso, os mais pobres eram atirados à fogueira, esquartejados, enforcados e decapitados pelo fio nada digno do machado. A intenção de Guillotin, ao menos na cabeça dele, era muito honrada. Já que não havia outro jeito de resolver as contendas, ele queria ao menos igualar todos, nobres e plebeus, perante a morte. 

O método escolhido para dar fim aos condenados de forma mais rápida, limpa e respeitosa, foi a guilhotina ― que na verdade, nem tinha esse nome. O aparelho de execução, hoje símbolo hediondo da revolução francesa, havia sido criado em 1792 por Antoine Louis, que assim como Guillotin, também era cirurgião. Os dois, inclusive, eram bastante próximos.

As primeiras execuções com a máquina eram tão rápidas que causaram certa decepção nos espectadores, como descreveu um médico da época chamado René-George Gastellier, membro da Assembleia Nacional. Segundo ele, a lâmina do aparelho era tão rápida que praticamente não havia distância entre o primeiro e o último ponto de contato. Assim que ela tocava o pescoço do pobre condenado, era como uma morte instantânea. 

Justamente por conta dessa velocidade, que retirava os elementos visuais mais trágicos daquele espetáculo macabro, era comum que se ouvisse gritos “tragam a forca de volta!”, vindos da multidão que assistiu às primeiras execuções e não se impressionou. Afinal, onde estavam os espasmos, os golpes duplos, triplos e a agonia? 

De início, por conta do nome do seu criador, a geringonça mortal levou o nome de Louison ou Louisette. Mas, graças à defesa ferrenha de Guillotin por este método de execução, ela logo passou a ser popularmente conhecida como guilhotina. Guillotin não gostou nem um pouco dessa homenagem e, sempre que podia, tentava desfazer o mal entendido e defender a sua postura contra a pena de morte.

Sabe aquela situação em que, quanto mais alguém reclama de um apelido, mais ele pega? Foi praticamente isso que aconteceu com Guillotin. Quanto mais ele tentava desvincular seu nome do aparelho, mais ele pegava. E a coisa ficou ainda pior quando, por uma irônica coincidência do destino, um outro médico chamado J. M. V. Guillotin, foi decapitado pela invenção de Antoine Louis durante o período do terror (1793-1794). Isso deu origem à famosa lenda de que Joseph Guillotin havia perdido a cabeça para a mesma máquina da qual havia sido defensor.

A verdade, no fim das contas, é bem menos dramática. Guillotin morreu tranquilamente em sua casa, em 1814, por causas naturais. Mas, conta-se, morreu profundamente amargurado e arrependido pela posição de defesa e de até certo entusiasmo por aquela que até hoje é a mais famosa máquina de fazer cabeças rolarem.

Por isso, é preciso ter muito cuidado com aquilo que apoiamos durante a vida. Pelo menos eu gosto de pensar assim. Vai que algum dia alguém decide colocar o meu nome em um Raio Desparticularizador Gravitacional Ionizado da Morte (patente pendente).

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Jocê Rodrigues
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Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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