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Impacto das comorbidades nas diferentes fases da Covid-19

Impacto das comorbidades nas diferentes fases da Covid-19
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fev. 28 - 7 min de leitura
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A influência das comorbidades provocadas pela Covid-19 nos desfechos da doença foram percebidas logo no início da pandemia. No mundo, aproximadamente 1,7 bilhão de pessoas têm ao menos uma comorbidade que pode aumentar o risco de desenvolver a enfermidade de forma mais grave. O entendimento do impacto das comorbidades tem dois principais propósitos: priorização de intervenções preventivas, vacinação e tratamentos precoces; e entender a biologia da doença.

Os desfechos mais descritos para definir a severidade da doença incluem hospitalização, tratamento com oxigênio, suporte artificial de órgãos e mortalidade. Decisões clínicas de admitir o paciente para hospitalização ou iniciar o suporte de órgãos são influenciados quando há a presença de comorbidades, visto que diferentes sequências de eventos biológicos podem levar à morte. A evolução da Covid-19 possui três fases distintas: doença viral aguda, lesão pulmonar inflamatória imunomediada e sequelas pós-agudas. Pacientes em cada fase possuem respostas diferentes aos tratamentos, refletindo diferentes mecanismos biológicos.

Quando uma comorbidades influencia o desfecho, seu mecanismo pode não estar relacionado à Covid-19 em si, visto que comorbidades podem predispor indivíduos à hospitalização como resultado de diversas doenças agudas. Assim, quando existem comorbidades, é necessário cautela ao definir a severidade da doença, pois sua presença pode influenciar decisões clínicas. Estudos restritos a pacientes hospitalizados por Covid-19 demonstram uma prevalência alta de comorbidades em relação à população geral.

Entre pacientes que necessitam de tratamentos mais prolongado, como ventilação invasiva prolongada, existe risco cumulativo de complicações associadas ao suporte artificial de órgãos e à doença crítica, incluindo risco de neuropatia e miopatias, infecções secundárias e delirium. Esses problemas não são exclusivos da Covid-19, porém possuem mecanismos importantes dos quais comorbidades podem piorar o prognóstico do paciente por diminuir a tolerância à doença.

Impacto das comorbidades durante cada fase da doença: 

Fase da doença viral aguda: comorbidades apresentam grande impacto durante a fase inicial da doença, onde a replicação viral é maior.  As associações das comorbidades com o Covid-19 dessa fase podem predispor o paciente a lesão pulmonar inflamatória. Estudo relata que mais de três quartos dos pacientes hospitalizados possuem pelo menos uma comorbidade. Além disso, pacientes com doença cardíaca, doença pulmonar, doença renal crônica, obesidade, câncer, problemas neurológicos crônicos, demência e/ou doença hepática têm o risco de morte aumentado.

As comorbidades mais comumente encontradas são hipertensão, seguida de asma e diabetes, sendo todas associadas com um maior risco de mortalidade. Estão em maior perigo pacientes transplantados e com doença renal crônica. Nos primeiros, foi encontrado que a terapia com imunossupressores antes da hospitalização não estava associada com a mortalidade. Porém, quando as classes de medicamentos foram analisadas individualmente, houve um aumento da mortalidade para o medicamento monoclonal anti-CD20 depletor de células B, como o rituximabe.

O HIV também contribui para a hospitalização, visto que os pacientes portadores do vírus da imunodeficiência que foram hospitalizados devido à Covid-19 são mais jovens do que pacientes não portadores do vírus, além do subgrupo apresentar uma maior mortalidade. A reativação do citomegalovírus (CMV) também foi documentada em muitos casos de Covid-19 sever, e amostras do trato respiratório indicam que a infeção latente do CMV está associada ao aumento da severidade da doença, mesmo na ausência de confirmação da reativação do CMV. Os maiores impactos de grande parte das comorbidades nessa fase de doença viral aguda é uma consequente genérica da fragilidade e reserva fisiológica reduzida desses pacientes.

Fase da lesão pulmonar inflamatória: é esperado que os efeitos gerais das comorbidades e fragilidades reduzam a tolerância de insuficiência respiratória hipoxêmica, uma consequência clínica da lesão pulmonar inflamatória. Algumas comorbidades possuem efeitos específicos que afetam essa fase diretamente, como adipócitos na obesidade, ou doenças respiratórias ou neuromusculares crônicas, que reduzem a tolerância de falha respiratória.

A obesidade associada com o estado crítico da Covid-19 é ligada a um pior prognóstico. O efeito está provavelmente relacionado aos pneumócitos e não à fragilidade, sendo que o mecanismo associado pode ser pelo desenvolvimento de pneumonite, inflamação imune inata sistêmica de baixo grau, que pode predispor lesões imunes inatas quando a replicação viral não é contida na fase inicial da doença.

Também foi identificada uma associação do diabetes a pacientes hospitalizados por Covid-19. Apesar do diabetes tipo II geralmente estar associado com obesidade e doença cardiovascular, também é um risco independente de hospitalização e internamento na UTI. Outro risco é o controle inadequado do diabetes tipo I. O alto IMC (obesidade)  também foi um preditor de prognósticos adversos em pacientes com diabetes tipo II e Covid-19.

Além disso, pessoas com diabetes possuem suscetibilidade a infecções bacterianas, que podem causar uma resposta hiperinflamatória envolvendo interleucina 1β (IL-1β) e IL-6, associadas com a severidade da doença e muitas vezes relacionadas a casos fatais. Estudos também apontaram relação entre o diabetes e a regulação da inflamação na Covid-19, principalmente envolvendo monócitos e macrófagos.

Fase de recuperação e sequelas pós-agudas da Covid-19: pessoas com comorbidades pré-existentes têm maior probabilidade de desenvolver sequelas após a Covid-19. Além disso, são menos prováveis de retornar à sua função física básica após a infeção. Pessoas que possuem mais de uma comorbidade estão associadas a um maior risco de sintomas persistentes após a infeção em sua fase aguda. Embora a vacinação seja altamente vertida para prevenir a forma severa da infecção, evidências indicas que a imunização não é tão eficaz para reduzir as sequelas pós-Covid-19.

Multicomorbidades: a maior parte das pesquisas do impacto da Covid-19 a longo prazo foi focada em uma única comorbidade. Porém, um terço dos adultos globalmente possuem duas ou mais comorbidades, aumentando esse número conforme a idade. Em estudo realizado no Reino Unido, a mortalidade de pacientes com multicomorbidade era mais do que o dobro. Dessa forma, torna-se necessário identificar as comorbidades dos pacientes para adequar tratamentos e cuidados devido ao prognóstico piorado. 

Referência:

Russell, C.D., Lone, N.I. & Baillie, J.K. Comorbidities, multimorbidity and COVID-19. Nat Med 29, 334–343 (2023). https://doi.org/10.1038/s41591-022-02156-9

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