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O ciclo necessidade de se falar mal da residência médica e porque esse assunto já me enjoou

O ciclo necessidade de se falar mal da  residência médica e porque esse assunto já me enjoou

Todo ano, as mesmas histórias se repetem na medicina (que seriam uma tragédia se fosse em outras situações), mas envolvem status quo de médico e outros fatores que nós sabemos. Não posso dizer por risco de ser processado vou resumir o ciclo: 

-Um residente tenta ou comete suicídio (2022 já vi um caso);
-Uma turma de residentes pede as contas em massa ou entram no Ministério Público por irregularidades(resultando em mais demissões e auditorias);
-Redes sociais fazem um debate de utilidade questionável para ganhar seguidores;
-E o que me deixa nervoso : esses mesmos debatedores meses depois para vender curso ou mentoria dizem depois “é para treinar médico trabalhar sob pressão/resiliência” e que “medicina é um sacerdócio” (tem muito influenciador digital que antes de ler o Harrison, deveria começar com um dicionário).

Ano passa, e isso tudo se repete.

Outra questão são as turmas  formadas por uma educação médica que continua sucateada (os dados de processos por “erro médico e institucional” são medidos por especialidade, por isso que o seguro do cirurgião plástico é maior que do clínico geral/UBS) e os itens acima se repetem. 

Vem também o argumento de médicos mais velhos do tipo “essa geração é mimizenta, não aguenta nada, só sabe reclamar”. Estranho que esse perfil de médicos superprotegem os filhos/puxa sacos, apoiam um sistema “ah, mas na minha época...” enquanto se atualiza com o Iphone mais recente e o congresso mais requintado.

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De fato, vivemos em uma sociedade doente com conflitos geracionais e grandes erros de como estamos lidando com a juventude.

Existem residentes “poliqueixosos”? Logico que sim, tão quanto existem instituições ruins que não sabem manejar isso e “chefes” (gosto desse termo pejorativo desde que me demiti da residência de patologia) que  aparentemente não possuem capacidade técnica e moral para resolver o que eles acham choro de criança. 

Se um residente se demite pode ser mimimi. Agora, se  todos se demitem certamente é institucional.

Isso não sou eu falando, é o efeito manada. Qualquer livro de gestão básica aborda o tema,  porém, como disse que tem muito médico que falta ler dicionário para ter discurso coeso, fica difícil ter esse papo. 

E não vou comentar sobre um suicídio de residente ser mimimi, terceirizar a culpa no cérebro deste ou de fora da residência (aliás isso no ponto de vista da medicina do trabalho, uma especialidade médica, esse tipo de desculpa vergonhosa é uma verdadeira confissão de incompetência). 

Um médico que diz que saúde mental é mimimi, terceiriza a culpa ou é mau caráter ou não sabe o valor da vida humana, em ambos os casos,  proponho uma reflexão mais agressiva:  

-E se fosse sua mãe, irmã, filha, pai, irmão ou amigo?  
-E se a responsabilidade de um residente fosse séria ao ponto de que se tivesse certeza de que se algo de realmente errado acontecesse você teria que responder na frente de um juiz ou tivesse sua “carreira” arruinada?

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Quando a decisão difícil fica na sua conta a resposta fica complicada né? 

Não vou mais me estender. O sucateamento da educação médica é o elefante branco na sala da medicina atual e nesse caso analisar a residência, é cíclico onde parece ninguém querer resolver efetivamente dadas sempre o ciclo se repetindo com os mesmos argumentos sendo contra ou a favor.

É só pegar o seu biscoito no mundo digital ou pegar um RQE. Quem sobrevive é forte para aceitar ganhar 30 reais por paciente grave "terceirizado" por um convênio bilionário(não que eu tenha visto isso ou algum médico especialista em um hospital grande reclamando).  


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Henri Hajime Sato
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Sou médico formado em uma faculdade que não gosto, passei pela pós USP, por Barretos e falhei. Não tenho grandes títulos, mestrados doutorados, livre docência, cargos ou Fellowships. Sou um andarilho que de vez em quando fala algumas coisas.

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