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O leão não estava sozinho

O leão não estava sozinho

Foi num dia que tudo aconteceu. Lembro bem do exato instante que aquela ideia caiu como um raio. Eu vi a imagem compartilhada em algum grupo de anestesiologia no WhatsApp. Era a foto de um leão sedado para um procedimento de imagem. Uma tomografia ao que parecia. Então tudo aquilo fez sentido. O leão estava lá, entubado e ligado a monitores e ele não estava sozinho. Havia ali um anestesiologista cuidando dele. Verificando seus sinais vitais, garantindo que ele continuasse anestesiado para que o exame fosse realizado com toda segurança. 

Foi o ponto final para todo o meu dilema. Para a ideia que vinha me perseguindo há alguns anos. Eu não poderia mais continuar a fazer o que estava fazendo. Anestesiando vários pacientes ao mesmo tempo. Uma conduta infelizmente ainda bem comum no nosso país. Proibido por lei, mas autorizada pelo jeitinho brasileiro

O jeitinho que distorce tantas coisas e que para todos os efeitos coloca a vida das pessoas em risco, nesse caso. Esta situação ocorre em vários lugares, mas é deliberadamente ignorada por tantos. Hospitais, entidades e pela própria classe médica. Na base de tudo isso está a falta de fiscalização, de denúncia e de atitudes mais enérgicas da sociedade como um todo. Questão de conivência. O palco montado para que tragédias ocorram. Uma lei tácita de não ver problema nisso.

O médico anestesista é treinado para cuidar de um paciente por vez. Não existem condições de fazer isso cuidando de 2, 3 pacientes simultaneamente. É inviável. É cruel. Há um interesse financeiro também nisso, como não haveria? O anestesiologista cuidando de diversos pacientes acaba ganhando mais. Fazendo mais procedimentos é visto como um profissional produtivo e versátil. Sai mais barato para o hospital. Vista grossa de todas as partes. 

Eu fiz isso por um bom tempo. Toda vez que pensava em parar, as velhas ideias surgiam: “É assim mesmo!” “Todo mundo faz, não tem jeito.” “Não conseguirá emprego em lugar nenhum.” Frases prontas e defesas vazias tentando proteger o erro e a má-prática. 
O leão me mostrou o caminho. Mostrou que dependia de mim e ninguém mais tomar um rumo diferente. Ganhar menos, trabalhar mais, sair da cidade onde eu estava. Deveria haver um jeito!

O único jeito que eu não aceitaria mais era continuar onde estava. Fazendo errado e jogando a minha especialidade no lixo. 
Cheguei a me imaginar sendo processado e condenado se continuasse fazendo isso. O veredito seria dado por mim mesmo antes de qualquer outro: Culpado! Totalmente culpado!

No  mesmo dia, ao ver a foto do leão, eu pedi para sair do grupo de anestesia onde estava. Não sabia onde iria trabalhar, mas sabia exatamente o que eu queria para o meu trabalho. Havia uma grande clareza agora ou seria um salto no escuro? 
Mas este salto estava sendo preparado há tanto tempo que nem eu mesmo saberia dizer. 
Muitos acham que tudo isso foi uma grande loucura. Que eu já estava bem estabelecido no grupo. Ganhava muito bem, nada que se preocupar, aparentemente. Mas essa minha “loucura” se chama consciência. E nada neste mundo compra uma consciência tranquila.
É ter a noção clara de não fazer aos outros aquilo que eu não gostaria que fizessem comigo, sem meio termo e sem desculpas.
É cuidar de apenas um leão. 
Nada mais.

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