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Asma e Doença Falciforme

Asma e Doença Falciforme

A “Doença Falciforme” (DF) corresponde a um grupo de hemoglobinopatias genéticas caracterizadas pela alteração estrutural da cadeia de Beta-globina, originando uma Hemoglobina (Hb) mutante, denominada Hemoglobina S (HbS). A formação dessa Hb anormal se deve a uma mutação no cromossomo 11 da cadeia de Beta-globina, fazendo com que no seu sexto códon seja transcrito o aminoácido Valina no sitio do Ácido Glutâmico. A DF é a síndrome hematológica e genética de maior prevalência no Brasil com estimativa de incidência de 3500 casos por ano, sendo as DF mais frequentes: Anemia Falciforme (Hb SS), S-Beta-talassemia, DF SC e SD.

A patogênese é complexa e envolve vaso-oclusão, hemólise, inflamação e disfunção endotelial, determinando complicações multissistêmicas severas. Em situação de desoxigenação, alteração de PH e febre, a HbS sofre polimerização originando os drepanócitos (hemácias em foice), com desidratação celular, hiperviscosidade e redução da reologia eritrocitária culminam em eventos vaso-oclusivos. Neste contexto fisiopatológico, o parênquima pulmonar é alvo da DF evoluindo com alta morbimortalidade. Uma das manifestações pulmonares da DF é a Asma, a qual é caracterizada por um processo inflamatório crônico, com hipertrofia da musculatura lisa brônquica, hipersecreção brônquica e disfunção ventilatória.

A Asma é uma comorbidade comum em crianças com DF, ocorrendo em 15 a 28% dos participantes de grandes estudos multicêntricos. A DF pode ser capaz de alterar a fisiologia pulmonar e o estado inflamatório local, de modo que eventos próprios da DF podem mimetizar exacerbação aguda de broncoespasmo, tornando esse diagnóstico diferencial um entrave na prática clínica. Além disso, a Asma em falcêmicos altera fundamentalmente a imunidade, tornando esses pacientes mais susceptíveis a infecções por múltiplos patógenos, sobretudo o Streptococcus pneumoniae, aumentando as chances de ocorrência de Síndrome Torácica Aguda (STA).

Devido à propensão dos pacientes com DF desenvolverem sepse causada pelo Streptococcus pneumoniae, durante a infância, a profilaxia com Penicilina é prescrita para todas as crianças com DF até 5 anos de idade, com objetivo de reduzir a mortalidade nesses pacientes. A partir de então, mais recentemente, foi sugerida a hipótese de que a exposição prolongada aos antibióticos está associada ao desenvolvimento de Asma infantil e de outras doenças alérgicas, já que bactérias que colonizam o trato respiratório moldam a resposta inflamatória e alérgica das vias aéreas e o uso de antimicrobianos anula esse mecanismo. Além disso, a deficiência de Arginina tem sido reconhecida como um importante aspecto da fisiopatologia da Asma na DF. Baixo teor de Arginina está atrelada a uma infinidade de complicações na DF, incluindo hipertensão pulmonar e crise vaso-oclusiva.

Em muitos desses estudos, o diagnóstico de Asma foi feito baseado em um relatório dos pais, constando um diagnóstico clinico ou por um episódio de ausculta respiratória com presença de sibilância nos últimos 12 meses ou paciente em uso de medicação para Asma.

Embora a relação entre Asma e DF não seja bem compreendida, acredita-se que a Asma potencializa a inflamação vascular e a hipóxia pelo mecanismo de redução da relação ventilação/perfusão, determinando eventos vaso-oclusivos. Dessa forma, pacientes asmáticos quando admitido em hospitais têm maior risco de desenvolver STA e crises álgicas. A literatura indica que pacientes com DF apresentam maiores taxas de Asma quando comparados a indivíduos não falcêmicos. Por aumentar a recorrência de STA, a Asma é uma patologia que deve ser melhor investigada nessa população, o que requer mais estudos sobre o assunto.

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REFERÊNCIAS:

1) Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Doença falciforme: condutas básicas para tratamento. Brasília: Ministério da Saúde; 2012.

2) Carneiro-Proietti ABF, Kelly S et al; International Component of the NHLBI Recipient Epidemiology and Donor Evaluation Study (REDS-III). Clinical and genetic ancestry profile of a large multi-centre sickle cell disease cohort in Brazil. Br J Haematol. 2018;182(6):895-908.

3)  Solé D, Rosário Filho NA, Sarinho ET al. Prevalência de asma e doenças alérgicas em adolescentes: estudo evolutivo de nove anos (2003 a 2012). J Pediatr. 2015;91(1):30-5.

4) Gusmão AC, Magalhães NNS, Santos OF et al. Manifestações Pulmonares na Doença Falciforme: um estudo transversal. Rev Assoc Med Bras Dr JR. 2020;1(11):31-35

5) Samarasinghe AE, Rosch JW. Convergence of Inflammatory Pathways in Allergic Asthma and Sickle Cell Disease. Front Immunol. 2020; 10.

6) Wandalsen AA, Solé GF, Lanza D et al. Asthma, allergic sensitization and lung function in sickle cell disease. Allergologia et Immunopathologia. Allergol Immunopathol (Madr). 2020;48(5):450-457.

7) DeBaun MR, Strunk RC. The intersection between asthma and acute chest syndrome in children with sickle-cell anaemia. The Lancet. 2016; 387(10037), 2545–2553.

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Academia Médica
Amanda do Carmo Gusmão Seguir

Acadêmica de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - SUPREMA

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