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Bright Club Dublin: os cientistas no stand-up comedy

Bright Club Dublin: os cientistas no stand-up comedy

O Bright Club é um evento de comédia organizado por cientistas e acadêmicos das mais diversas áreas do conhecimento. Por uma noite, pesquisadores tornam-se comediantes de stand-up ou artistas musicais e exploram sua área de expertise de uma forma, a princípio, contra-intuitiva. O Bright Club  é uma iniciativa que busca de certa forma revigorar a ciência: torná-la popular, acessível e lapidá-la de seus estigmas ao mesmo tempo que desenvolve habilidades não óbvias, mas necessárias, no cientista.  

Humanos estereotipam. As vezes assumimos certos preceitos como verdade baseado em informações e experiências limitadas. Extrapolamos conclusões incorretas, confundimos correlação e causalidade, assumimos que a linguagem é a realidade e esquecemos que ela também tem suas limitações na representação do que é de fato real. Tudo isso, associado a preguiça e desinteresse, converge, infelizmente, para formação de estereótipos. Dentre os estereótipos profissionais está o do cientista: nerds socialmente ineptos, cafonas, interessados em assuntos que ninguém entende ou sequer tem interesse em entender.  Talvez, reconheço, há um pouco de verdade nessa descrição. Talvez a ciência atraia pessoas que por sua vez tenham mais apreço ao material do que ao social, ou talvez a carreira científica demande que aqueles que se aventurem nela abra um pouco a mão do lado social. Pode ser. É incorreto afirmar, entretanto, que uma carreira na ciência seja incompatível com elegância, carisma e sociabilidade, um argumento que precisa ser feito em nome do futuro da ciência.

Ai que entra o Bright Club, indo de encontro com  a clássica caricatura do cientista, a iniciativa mostra ao público o lado mais pessoal do pesquisador. A equipe do Bright Club une comediantes de stand-up com pesquisadores e ajudam-nos a desenvolver seu material. O resultado é um show de stand-up com um conteúdo pessoal e educativo.  Alguns desses comediantes relatam inclusive uma sensação de união depois dessas apresentações; eles descrevem um momento de conexão do seu “Eu pesquisador” e seu “Eu pessoal”.  Dessa forma, o cientista deixa de ser uma caricatura ao olhar público e torna-se uma pessoa como qualquer outra relacionável e falha em meio a toda sua complexidade.

O stand-up e a comédia pode, a primeira vista, parecer incompatível com a ciência mas acredito que se analisarmos os dois, fundamentalmente veremos que não são tão diferentes assim.  A graça de uma piada, a punchline, esta atrelada a subversão de expectativa – ela consiste em enxergarmos aquela realidade por uma outra perspectiva, ou em reparar algo que não tínhamos percebido – agora questiono-lhe: não é exatamente isso que a ciência faz? Ela não busca enxergar na realidade coisas que estão diante dos nosso olhos mas que até então não tínhamos visto? Não é isso, também, o que fazem os grandes comediantes como Dave Chappelle ou Seinfeld? Talvez se tornássemos essas semelhanças mais evidentes, como faz o Bright Club, a ciência e a busca pelo conhecimento ganharia espaço como forma de lazer.

Para alguns de nós a busca pelo conhecimento nas ciências já cumpre essa função e acredito que grande parte desse interesse vem parcialmente dos grandes comunicadores que encontramos ao longo da nossa caminhada sejam eles professores, palestrantes ou autores. Carl Sagan, o grande astrofísico,  comunicador, apresentador da série Cosmos destaca em seu clássico “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro” a importância da comunicação para os cientistas. Ele atesta sobre a necessidade de ser capaz de expressar sobre assuntos e temas complexos de uma forma que pessoas de diversos níveis de conhecimento consiga entender seja através de metáforas, comparações ou analogias mais compreensíveis. Ele destaca, além dos motivos mais óbvios como ministrar uma aula, a necessidade de conseguir comunicar a importância do seu trabalho na hora de conseguir a verba necessária para financiar um projeto uma vez que a pessoa encarregada de aprovar esse financiamento precisa entender como o seu dinheiro será utilizado. O Bright Club, em alinhamento com essa premissa, busca desenvolver essas habilidades nos seus participantes através do treinamento de técnicas de comunicação por meio da colaboração com comediantes profissionais.

Uma vez que conseguimos comunicar de forma clara ideias complexas estaremos um passo mais próximo de engajar o público e gerar o interesse genuíno. Vou escrever algo agora que provavelmente você já sabe, mas mesmo assim não vai gostar de ler: ninguém acha seu trabalho tão interessante quanto você. Não estou dizendo que seu trabalho não seja interessante estou dizendo que provavelmente seu interesse não surgiu da noite para o dia mas sim foi crescendo gradativamente conforme você foi estudando e entendendo cada vez mais do assunto. O stand-up comedy, entretanto, abre margem para que você fale de uma forma pessoal sobre o seu trabalho e assim faça transparecer o porquê daquele tema ser tão interessante para você e quem sabe despertar esse interesse em alguém.

A proposta do Bright Club, portanto, representa uma iniciativa muito interessante que merece nossa atenção e que pode ser útil também no âmbito nacional. O intuito de trazer o conhecimento técnico para fora do laboratório e para dentro de um ambiente ameno, descontraído e informal possibilita que a informação seja disseminada como entretenimento. Nesse espaço se cria uma comunidade, acessível ao leigo, de pesquisadores das mais diversas áreas da ciência que, simultaneamente, se divertem e aprendem. Todos saem ganhando: o cientista comediante ganha um espaço para falar do seu trabalho e desenvolver novas habilidades comunicativas enquanto que os espectadores sedimentam novos conhecimentos e despertam interesse. Por que, afinal, como diz Jessamyn Fairfield, fundadora do Bright Club Dublin:

“do que adianta manter o conhecimento preso em uma torre de marfim?”

Academia Médica
Matheus Scalzilli
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Estudante de medicina da Zona Oeste do Rio de Janeiro. "A ciência não é apenas compatível com a espiritualidade; é uma fonte profunda de espiritualidade" - Carl Sagan

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