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Quer que seu aluno aprenda? Estresse-o da forma correta

Quer que seu aluno aprenda? Estresse-o da forma correta

Quantas vezes você já estudou em cima da hora para uma prova e acabou indo melhor do que o seu amigo que estudou por semanas? Seu amigo provavelmente deve ter ficado no mínimo intrigado com essa situação, mas certamente depois de ler esse post vocês vão entender porque isso acontece.

Já não é de hoje que são feitos estudos sobre a influência do estresse em funções cognitivas e, mais precisamente, no processo de aprendizado e memória. Basicamente, o processo de estresse leva a uma descarga hormonal cerebral, como a liberação de glicocorticoides, e essas substâncias sinalizam aos nossos neurônios que algo não vai bem. Embora esses efeitos sejam considerados nocivos, há décadas, estudos veem demonstrando que mecanismos mais complexos participam não só de forma deletéria, mas também criando memórias mais claras, mais vivas e com mais conexões. Por exemplo, passar por uma experiência estressante, como uma entrevista de um tão sonhado emprego ou um acidente, possivelmente fará você lembrar dessa experiência por mais tempo e de uma forma mais vívida, do que lembrar o diálogo com um amigo semana passada. 

Uma explicação para isso pode ser a "intensidade" do fator estressante: quanto mais rápido e mais intenso, mais fácil de formar conexões para a memória, ao passo que estressores contínuos e também intensos dificultam o armazenamento de informações. De forma geral, entende-se que os efeitos do estresse geram efeitos de dose invertida em U no aprendizado,  o que significa que temos uma estimulação favorável hormonal em dose baixa, mas, caso esse estímulo continue, acontece uma inibição progressiva da memória, como descrito por Bucherelli et al, e Conrad et al.

Outros fatores envolvidos são os fatores psicológicos, nos quais o controle e a previsibilidade do fator estressante ao indivíduo modulam a capacidade de memorizar determinada situação. Em outras palavras, indivíduos que são expostos a situações estressantes e que conseguem se manter focados e controlados diante daquela situação são os que mais têm chance de aprender e guardar o que foi aprendido na memória de longo prazo. 

Em estudos com ratos, Carmen Sandi et al (1) concluiu que a intensidade do estresse e a sua duração podem modular de forma positiva a memória e aprendizado. Porém, se esse estímulo estressante permanece de forma contínua, seja ele intrínseco ou extrínseco, a tendência é a informação armazenada ser perdida. Outros pontos interessantes é que alguns estudos mostraram que estímulos estressantes, após a decodificação de uma informação nova, podem melhorar o aprendizado (2, 3). É o caso do exemplo da prova no início do post.

Logo, estresse na medida certa pode ser benéfico. Mas como entender e aplicar isso para otimizar o aprendizado dos nossos alunos?

Em estudo da universidade de Vanderbilt com a realização de atividades em grupos, em que os alunos tinham determinado tempo para entender e decodificar uma ideia nova e apresentar o trabalho em 30 minutos demonstrou que os melhores desempenhos foram obtidos por grupos após a atividade sob o estresse do tempo e do conteúdo novo, do que por grupos que fizeram a atividade em dois dias. 

Logo, utilizar estímulos curtos de estresse em dinâmicas em salas de aula é uma forma interessante de motivar alunos. Vemos hoje o estudante bombardeado de informações irrelevantes, de uma quantidade de matérias absurdas e com consequente desmotivação ao aprendizado. Saber utilizar técnicas que possam tirar o estudante da sua zona de conforto e pensar sob estresse poderia ser uma forma interessante de incentivar o trabalho, principalmente em equipes, estimular o autoconhecimento, a interação com outras pessoas e, consequentemente, otimizar o aprendizado. Atuando dessa forma é possível melhorar o dinamismo em sala de aula e manter o aluno interessado e motivado em novas atividades. 

Isso é particularmente interessante quando pensamos no dia a dia de um médico. Quantas vezes  você, médico, já esteve diante de uma situação limítrofe na qual a tomada de decisão rápida e precisa elevou o nível de estresse, mas no final o resultado foi positivo? E além disso, essa situação certamente nunca mais foi esquecida e talvez até aplicada a outras situações semelhantes.

Muito ainda precisa ser entendido e estudado pela neurociência para entender a interação entre neurotransmissores, hormônios do estresse e criação de conexões que ficam na memória a longo prazo. Porém com dados que temos até o momento, sabemos que saber oferecer os estímulos estressantes certos, a curto prazo e de forma interativa, seria interessante para melhorar o aprendizado de nossos alunos.

 

Referências:

  1. Stress and Memory - Behavioral Effects and Neurobiological Mechanism . Carmen Sandi and M. Teresa Pienelo-Nava 2007.
  2. Neurobilogy of learning and memory. L.Swable, O.T. Wolf 2010
  3. Learning under stress: How does it works. Joels et al. 2006

 

Leia também os outros artigos da série sobre Ensino Médico, publicado pela Dra. Roberta Fittipaldi.

 

 

Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Professora da Pós graduação em Terapia Intensiva HIAE. Cursando doutorado em Pneumologia FMUSP. Médica Assistente UTI Respiratória FMUSP.

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