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O que o Dia Mundial de Combate ao Agrotóxico tem a ver com a Medicina?

O que o Dia Mundial de Combate ao Agrotóxico tem a ver com a Medicina?

 

À meia-noite do dia 3 de dezembro de 1984, 40 toneladas de Isocianato de Metilo (MIC) vazaram de uma fábrica de agrotóxicos da Union Carbide na cidade de Bhopal, capital de Madhya Pradeshcon, na Índia, após uma explosão. Cerca de 25 mil pessoas morreram, e outras milhares tiveram sequelas graves, como danos aos olhos, pulmões, cérebro, e aos sistemas imunológico, reprodutivo musculoesquelético e outros, assim como à saúde mental. Oito mil pessoas morreram nos 3 primeiros dias, e mais de meio milhão sofreram intoxicações graves. A fábrica da Union Carbide, hoje subsidiária da Dow Chemical, havia sido instalada no final da década de 1960, na área densamente povoada e pobre. Em homenagem aos milhares de mortos na tragédia, instituiu-se o dia 3 de dezembro como o Dia Mundial de Combate aos Agrotóxicos.

De acordo com o INCA (Instituto Nacional do Câncer), agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos, ervas daninhas e outras pragas sob a justificativa de controlar as doenças provocadas por esses vetores e de regular o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural quanto urbano.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que os agrotóxicos causam 70 mil intoxicações agudas e crônicas por ano e que evoluem para óbito em países em desenvolvimento. Outros mais de sete milhões de casos de doenças agudas e crônicas não fatais também são registrados.

O Brasil figura como o país com maior consumo destes produtos desde 2008, decorrente do desenvolvimento do agronegócio no setor econômico o que, consequentemente, leva a um grande peso na saúde pública quando considera-se situações como o manejo da intoxicação aguda, crônica, absenteísmo no trabalho e óbitos, principalmente relacionados a profissionais que trabalham com estas substâncias, seja nas indústrias ou na aplicação. Ademais, há que se destacar que até setembro de 2021, o país havia aprovado a utilização de 411 novos compostos, muitos dos quais proibidos na Europa e América do Norte. De certa forma, este número pode significar que compostos mais modernos, seguros e eficazes estão sendo utilizados e surgem com o intuito de substituir agrotóxicos antigos e mais danosos. Mais de 60% do volume comercializado por aqui é de agrotóxicos comprovadamente cancerígenos e com ação desreguladora hormonal.

Os principais efeitos agudos na saúde podem surgir como irritação na pele, ardência, desidratação, alergias, ardência do nariz e boca, tosse, coriza, dor no peito, dificuldade de respirar, dor de estômago, náuseas, vômitos, diarreia, além de outros sintomas inespecíficos, tais como: dor de cabeça, transpiração anormal, fraqueza, câimbras, tremores, irritabilidade.

Por outro lado, os efeitos crônicos estão relacionados com sintomas neurológicos, como insônia, esquecimento, abortos de repetição, impotência, depressão, problemas respiratórios graves, alteração do funcionamento do fígado e dos rins, anormalidade da produção de hormônios da tireoide e das gônadas, malformações e problemas no desenvolvimento intelectual e físico das crianças.

Ainda hoje no Brasil os agrotóxicos continuam matando silenciosamente milhares de pessoas. Trabalhadores rurais e moradores dos arredores de grandes plantações do agronegócio são os mais atingidos. Escolas rurais, assentamentos agrários, reservas indígenas e territórios de povos e comunidades tradicionais também têm sido expostos de maneira perigosa a estas substâncias.

Os danos causados pelo uso de agrotóxicos não se restringem a essas regiões, pois existe a prática da utilização de agrotóxicos herbicidas (desfolhantes) em áreas de expansão agrícola, que permite que estas substâncias adentrem parques nacionais. Isso me recorda do livro Primavera Silenciosa (Silent Spring) da bióloga Rachel Carson, que denunciou, através de suas pesquisas, a presença de pesticida DDT nos tecidos de ursos polares, demonstrando também o efeito de magnificação trófica (Bioacumulação) que ocorre ao longo das cadeias alimentares.

Neste contexto, cabe destacar a importância do tema para os consumidores finais que acabam, de forma muitas vezes inconsciente, ingerindo grandes quantidades de agrotóxicos por meio da alimentação. Aqui aproveito para quebrar alguns mitos: essas substâncias não encontram-se somente nas cascas dos alimentos; também existem resquícios de medicamentos e agrotóxicos que podem estar na polpa de frutos, dentro de hortaliças e animais abatidos, que não são possíveis de serem eliminados. Além disso, a principal cultura que recebe essas substâncias é a soja, que acaba direcionada para a pecuária.

Mesmo num modelo de agricultura químico-dependente, o Brasil poderia adotar condutas menos danosas, que perpassam por mudanças no modelo de produção alimentar, fortalecimento das culturas orgânicas e agricultura familiar, ampliar a utilização de defensivos biológicos, a adoção de defensivos mais modernos e a utilização mais racional e controlada destes compostos. Além disso, o reforço do uso de EPIs na lavoura e indústrias, o controle pleno do destino do produto aplicado, a fiscalização do uso e comercialização e o monitoramento constante da água e alimentos in natura e industrializados são práticas que devem ser constantemente fortalecidas.

O contexto atual já mostra que o modelo de agricultura hegemônico no país deve ser repensado. O Brasil entrou novamente no mapa da fome (mais de 59% dos habitantes do país encontram-se em algum grau de insegurança alimentar), apesar dos recordes sucessivos de lucro no setor do agronegócio, que concedem ao país o título de "celeiro do mundo". Prevenir ou reduzir os danos dessas substâncias exige superar muitos obstáculos, colocados principalmente para atender a interesses econômicos e políticos.

    Essas questões tornam fundamental a luta contra os agrotóxicos (ou pelo menos ao abuso e uso inadequado destas substâncias) por todos os setores da sociedade, em especial os profissionais da saúde. As mais importantes instituições de pesquisa em saúde e meio ambiente do país têm, há anos, alertado sobre os desmontes da regulação de agrotóxicos, o sucateamento de órgãos fiscalizadores e as doenças e mortes causadas pelos agrotóxicos.

    Ademais, também apontam a urgência para se investir em formas mais social, sanitária e ambientalmente sustentáveis. Da mesma forma como o desastre de Bhopal poderia ter sido evitado, é necessário e urgente trabalharmos para evitar mais mortes e doenças causadas por agrotóxicos.

     

    Referências:

    AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Monografias autorizadas. Brasília, DF: ANVISA, 2018.

    AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Regulamenta­ção. Anvisa aprova novo marco regulatório para agrotóxicos. Brasília, DF: ANVISA, 2019.

    BRASIL. Decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002. Regulamenta a Lei no 7.802, de 11 de julho de 1989, que dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, [...] e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 139, n. 5, p. 1-12, 8 jan. 2002.

    CARNEIRO, F. F. et al. Segurança Alimentar e nutricional e saúde. Parte 1. In CARNEIRO, Fernando Ferreira et al. (org.) Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015. Disponível em: Acesso: 15 ago. 2017.

    INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Exposição no trabalho e no ambiente. Agrotóxico. Rio de Janeiro: INCA, 2019.

    INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Ambiente, trabalho e câncer: aspectos epidemiológicos, toxicológicos e regulatórios / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2021.

    LONDRES, F. Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida. 2. ed. Rio de Janeiro: Rede Brasileira de Justiça Ambiental; Articulação Nacional de Agroecologia, 2012.

     

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    Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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