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Dia Mundial da Alimentação: o que isso tem a ver com Medicina?

Dia Mundial da Alimentação: o que isso tem a ver com Medicina?

Anualmente, é celebrado no dia 16 de outubro o Dia Mundial da Alimentação. Neste ano, a FAO (Food and Agriculture Organization da ONU) trouxe como tema "As nossas ações são o nosso futuro". Colocando a problemática dos sistemas alimentares no centro das atenções, que, da forma como ocorrem atualmente, representam uma grande ameaça à sustentabilidade da vida humana. Este Dia Mundial da Alimentação é o segundo a ser assinalado durante a crise da COVID-19, que tem tido repercussões devastadoras na segurança alimentar em todo o mundo. A pandemia da COVID-19 gerou uma recessão econômica que pode vir a acrescentar 100 milhões ou mais aos 690 milhões de pessoas que já sofrem de fome.

A comida é a alavanca mais forte para otimizar a saúde humana e a sustentabilidade ambiental na Terra. No entanto, a alimentação é atualmente uma ameaça tanto às pessoas como ao planeta. Um imenso desafio para a humanidade é suster uma população mundial crescente com dietas saudáveis a partir de sistemas alimentares sustentáveis. Embora a produção mundial de calorias em geral tenha acompanhado o crescimento populacional, mais de 820 milhões de pessoas ainda não têm comida suficiente, e muitas mais consomem dietas de baixa qualidade e/ou comida
demais. Dietas insalubres agora representam um risco maior para a morbidez e a mortalidade do que o uso inseguro de sexo, álcool, drogas e tabaco juntos. A produção global de alimentos ameaça a estabilidade climática e a resiliência dos ecossistemas e constitui o maior impulsionador individual da degradação ambiental e da transgressão dos limites planetários.

Por isso, é urgentemente necessária uma transformação radical do sistema alimentar global. Sem ação, o mundo corre o risco de não cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e o Acordo de Paris, e as crianças de hoje herdarão um planeta gravemente degradado no qual grande parte da população sofrerá cada vez mais desnutrição e doenças evitáveis.
Existem evidências científicas substanciais que vinculam dietas à saúde humana e à sustentabilidade ambiental. No entanto, a ausência de alvos científicos globalmente acordados para dietas saudáveis e a produção de alimentos prejudicou os esforços em grande escala e coordenados para transformar o sistema alimentar global. 

O planeta precisará sustentar 10 milhões de pessoas em 2050

 E isso irá pressionar cada vez mais os recursos naturais, o ambiente e o clima. Mesmo nos níveis atuais, a produção alimentar tem frequentemente um preço inaceitavelmente elevado, degrada ou destrói habitats naturais, contribuindo para a extinção de espécies e custando bilhões de dólares em recursos perdidos e desperdiçados. Mais importante ainda, os atuais sistemas agroalimentares revelam desigualdades e injustiças profundas. Pelo menos 2 milhões de pessoas não têm acesso regular a quantidades suficientes de alimentos seguros e nutritivos, enquanto 3 milhões não podem dar-se ao luxo de uma nutrição saudável, ao mesmo tempo que a obesidade continua a aumentar em todo o mundo.

O que é um sistema Agroalimentar?

Os sistemas agroalimentares cobrem toda a cadeia produtiva dos alimentos (por exemplo, cereais, legumes, peixes, fruta e gado) desde a exploração agrícola à mesa - incluindo quando são cultivados, colhidos, transformados, embalados, transportados, distribuídos, comercializados, comprados, preparados, comidos e eliminados. Também engloba os produtos não alimentares (por exemplo, silvicultura, pecuária, utilização de matérias-primas, biomassa para produzir biocombustíveis, e fibras) que constituem meios de subsistência, e todas as pessoas, bem como atividades, investimentos e escolhas que desempenham algum papel na obtenção destes produtos alimentares e agrícolas.

As contradições não poderiam ser maiores: por um lado, milhões de pessoas que sofrem de fome ou de desnutrição e, por outro, um grande número apresenta excesso de peso crónico devido a um regime alimentar pobre. Os pequenos agricultores produzem mais de um terço dos alimentos do mundo, no entanto são alguns dos mais afetados pela pobreza, já que a agricultura continua a ser um setor imprevisível e frequentemente inseguro.

O enorme aumento de desperdício e perda de alimentos, paralelamente a pessoas que dependem de bancos alimentares ou de ajuda de emergência. Atualmente, 14% da alimentação mundial perdem-se devido a condições inadequadas de colheita, manuseamento, armazenagem e transporte e 17% são desperdiçados na fase de consumo.

A prova está bem à vista de todos – os nossos sistemas agroalimentares estão arrasados e nunca foi tão urgente transformar a forma como o mundo produz e consome o que comemos. Quase 2 milhões de pessoas têm excesso de peso ou sofrem de obesidade devido a um regime alimentar pobre e a um estilo de vida sedentário. Estima-se que os custos de saúde que lhes estão associados serão superiores a 1,3 bilhão de dólares por ano em 2030. 

Os sistemas alimentares mundiais são atualmente responsáveis por mais de 33% das emissões de gases com efeito de estufa, e 10% das pessoas são afetadas por uma distribuição  insegura de alimentos, muitas vezes contaminados por bactérias, vírus, parasitas ou substâncias químicas.

Por outro lado, um sistema agroalimentar sustentável é aquele em que uma variedade de alimentos suficientes, nutritivos e seguros está disponível a um preço acessível para todos e em que ninguém passa fome ou sofre de desnutrição.

As prateleiras no mercado local ou na mercearia estão cheias, mas menos alimentos são desperdiçados e a cadeia de abastecimento alimentar é mais resiliente a choques, tais como condições meteorológicas extremas, picos de preços ou pandemias, ao mesmo tempo que limitam, em vez de agravar, a degradação ambiental ou as alterações climáticas. Os sistemas agroalimentares sustentáveis oferecem segurança alimentar e nutricional a todos, sem comprometer as bases econômicas, sociais e ambientais para as gerações futuras. Conduzem a uma melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e melhor qualidade de vida, sem deixar ninguém para trás.

Poder do consumidor

A urbanização, globalização e mudança nos sistemas de comercialização estão entre os fatores impulsionadores das transições de dietas. As escolhas  de compra de alimentos são complexas, conduzidas por valores e moldadas por limitações econômicas e geográficas, e pela insuficiência de conhecimento.

Ao escolher alimentos, além do custo e calorias, os indivíduos podem
colocar ênfase variável em fatores como diversidade, frescor, produção
sustentável, segurança, benefícios para a saúde e outras pressões normativas. É imperativo que os tomadores de decisão em segurança alimentar e saúde pública fiquem cientes das mudanças nos padrões dietéticos e das implicações para a saúde e o bem-estar. Sabe-se que a obesidade não é mais um fenômeno de países “ricos”: é amplamente reconhecida como uma epidemia global que afeta todos os continentes e condições socioeconômicas. As mudanças da dieta, ou mesmo a “comercialização não tradicional de alimentos tradicionais”, podem também trazer novos riscos à segurança de alimentos que precisam de uma gestão eficaz para minimizar os riscos. As falhas no saneamento básico e na infraestrutura de áreas urbanos de baixa renda em alguns países em desenvolvimento podem também expor as pessoas aos riscos de segurança alimentar.

Em termos de realidade brasileira, em 2021 59,4% dos habitantes do país se encontram em algum grau de insegurança alimentar no ano de 2021. Além disso, a pobreza aumenta o risco de escolhas alimentares não saudáveis. Tendo isso em vista, a criação de condições favoráveis à mudança de comportamento alimentar exigirá evidências sólidas, políticas informadas de segurança alimentar e nutricional e a integração da segurança alimentar e da nutrição nas políticas agrícolas e de investimento mais amplo.

Os alimentos que escolhemos e a forma como os preparamos, cozinhamos, armazenamos e eliminamos tornam-nos uma parte ativa do funcionamento de um sistema agroalimentar. Todos somos consumidores, e chegou a hora de mudar os velhos padrões de modo a transformar os sistemas agroalimentares para melhor. Podemos influenciar o mercado optando por produtos não só nutritivos mas também ambiental e socialmente responsáveis. Isto pressionará os governos a criarem políticas mais sustentáveis, promoverem melhores métodos agrícolas e motivarem maiores investimentos em regimes alimentares saudáveis e sustentáveis. Em termos práticos, podemos começar por acrescentar novos alimentos cultivados localmente e sazonais ao nosso regime alimentar, aumentar a ingesta de alimentos de origem vegetal em detrimento de proteína animal, reduzir o desperdício alimentar, recusar comprar alimentos com embalagens excessivas e ler sobre o impacto ambiental e social dos alimentos que comemos.

Precisamos agir em conjunto para garantir uma nutrição adequada a todos no presente e no futuro.

 

 

O que nós podemos fazer enquanto profissionais da saúde?

  •  Escolher alimentos nutritivos, in natura e variados em vez de alimentos ultraprocessados, aumentando a procura de alimentos saudáveis.
  • Acrescentar à nossa alimentação proteínas de origem vegetal, como oleaginosas e leguminosas, que são mais baratas do que as proteínas animais e mais generosas para o nosso planeta.
  • Planejar e organizar as nossas compras e a cocção dos alimentos, de forma a evitar a perda e o desperdício alimentar e garantir uma melhor nutrição.
  • Orientar os pacientes sobre escolhas alimentares saudáveis e sustentáveis, de forma baseada em evidências e desmistificando algumas crenças relacionadas à nutrição.
  • Defender regimes alimentares saudáveis e sustentáveis. Falar na comunidade e certificar-se da disponibilidade de alimentos saudáveis nas escolas, lares e outros locais públicos.

 

Referências:

World Food Day 2021. Disponível em https://www.fao.org/world-food-day/en

Food and Agriculture Organization of the United Nations. Save and grow: a policymaker’s guide to the sustainable intensification of smallholder crop production. Rome: FAO; 2011. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i2215e.pdf

IPCC, 2019: Summary for Policymakers. In: Climate Change and Land: an IPCC special report on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems [P.R. Shukla, J. Skea, E. Calvo Buendia, V. Masson-Delmotte, H.- O. Pörtner, D. C. Roberts, P. Zhai, R. Slade, S. Connors, R. van Diemen, M. Ferrat, E. Haughey, S. Luz, S. Neogi, M. Pathak, J. Petzold, J. Portugal Pereira, P. Vyas, E. Huntley, K. Kissick, M. Belkacemi, J. Malley, (eds.)].

WILLETT, Walter, et al. Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. The Lancet, 2019, 393.10170: 447-492.

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Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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