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Pallium: Por um fim de vida com dignidade e sem distanásia

Pallium: Por um fim de vida com dignidade e sem distanásia

 

Cartas do Amanhã: 1° 

Cubra-me com teu manto, aqui faz frio, é gélida solidão. A luz que vejo não se apaga e desgasta meu corpo e minha alma. Bip, bip... Permita-me ouvir o silêncio, permita-me ouvir alguma canção.

Repouse sobre minha boca um gole d'água; tenho sede, mas dizem que o soro já me hidrata... Onde estão as horas? Nem me lembro mais dos dias, eles também se perderam... Onde está o sol? Não mais sei se é dia ou noite, não sinto mais outros cheiros a não ser o cheiro do álcool que passam sob as mãos. Continua a fazer frio, solidão...

Queria te pedir perdão, ou dizer o que há em meu coração, mas há uma transfixão de tubos a silenciar-me. Façamos uma oração, mas deixe-me ir...

Sinto ainda o peso das compreensões e o peito ardendo... Choque em 3, 2, 1, afastar! Leva-me pra casa... Fiquemos juntos, atados, sem cabos, sem tubos, ou equipo pendurados. É hora de partir. É hora de me deixar partir...

Assinado: Você no futuro...

A vida é sopro, não dá para aprisioná-la em nosso egoísmo; afinal o que é estar vivo para você? Não dá para viver na imortalidade. É necessário deixar o egoísmo de lado e permitir que quem amamos que se vá em paz.

Que nós médicos e estudantes de medicina busquemos de todas as formas possíveis tornar as UTI's ou qualquer lugar em que trabalhemos, num ambiente mais humano, digno e repleto de amor! Passamos 6 anos dentro de hospitais, tendo aulas de técnicas e mais técnicas, mas se esquecem de nos ensinar como enfrentar a morte, como encará-la. Não somos a favor da morte, mas precisamos respeitá-la e compreendê-la para que o sofrimento e o fardo seja mais leve para nós e para os familiares.

Que sejamos o Pallium (o manto) para quem já está a sofrer. Sem distanásias, sem iatrogenias, sem egoísmos, sem dor, sem falta de ar ou sedações excessivas ou prolongadas. Quem está para partir tem o que dizer, precisa se manifestar, se despedir, amar e sentir-se amado. PENSE NISSO!

 

Nota do autor: que bom que existem Unidades de Terapia Intensiva e que muitos pacientes conseguem literalmente voltar a vida depois de serem nelas reabilitados e tratados; todavia não é um bom lugar para se morrer ou estar. Que aprendamos a respeitar os limites da medicina; que aprendamos a respeitar a morte e darmos a quem amamos a possibilidade de uma morte mais digna (quando possível), seja numa UTI ou em casa. Busquemos por fim, qualidade de morte no momento mais frágil da existência de nossos pacientes e de quem amamos...

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ARTHUR AMARAL DE SOUZA
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Médico formado pela Universidade Potiguar(UNP) Residente em Clínica Médica pela (SES/DF). Plantonista Hospital Brasília (HoBra)/ Rede Ímpar

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