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O desafio do ensino da terapia intensiva à beira do leito

O desafio do ensino da terapia intensiva à beira do leito

A excelência no ensino médico é um hábito que deve ser estudado, refinado e otimizado a cada dia. O ensino da terapia intensiva nas UTIs dos hospitais de ensino é um desafio ao médico/instrutor, visto a presença de um ambiente dinâmico, pacientes graves, de alta complexidade e nível de estresse alto.

Desde que comecei meu trabalho como médica assistente na UTI Respiratória INCOR/FMUSP, venho me desafiando a entender e melhorar o ensino à beira do leito do doente crítico, pois diariamente temos residentes de medicina, internos, estagiários e diversos profissionais da área de saúde, com diferentes graus de conhecimento e diferentes habilidades.

Um ponto importante nessa discussão é saber quais as habilidades e competências que o aluno e/ou residente precisa desenvolver durante a sua estadia na UTI. Nesse ponto, apesar da literatura escassa, todos os estudos concluem que para adquirir habilidades de um intensivista, os treines precisam primeiramente entender o funcionamento da UTI, a dinâmica e interação cordial com a equipe multiprofissional, horários de rounds, o contato com as famílias, a correta abordagem com familiares e pacientes sobre quadros clínicos, procedimentos, prognósticos e tratamento. Por outro lado, o treinamento adequado de procedimentos e manuseio de equipamentos também é fundamental. Além, é claro, das habilidades na assistência ao doente crítico.

A prática do ensino na UTI precisa ser à beira do leito. Esse é o substrato do aprendizado: entender a fisiopatologia, as alterações clínicas, intervir de forma precisa e eficaz para o correto diagnóstico e tratamento. Dessa forma, diversos estudos abordam técnicas rápidas e práticas para o médico/instrutor aplicar à beira leito. A seguir, faço um breve resumo de como nós educadores, ou mesmo médicos da terapia intensiva que lidamos com alunos podemos aplicar essas técnicas no dia a dia.

1. Ensino sob pressão

A pressão e o tempo curto às vezes impedem o médico/instrutor de se dedicar ao ensino, porém, neste artigo da revista Chest (1) é sugerido o modelo de "1-minute-preceptor". O modelo consiste em perguntas rápidas que possam ser feitas durante o round para estimular o raciocínio e pensamento crítico do aluno. 

  • Inciar perguntando qual a opinião do aluno sobre o caso, ensinar regras gerais, provar as evidencias, reforçar e premiar as respostas corretas, corrigir erros. Estimular, aprofundar o conhecimento com textos, apresentações, artigos.
  • Usar exemplos prévios para chamar a atenção e focar no que é importante, utilizar desenhos simples (figuras, flow charts, algorítimos), considerar "gamification" para encorajar a participação dos alunos e engajamento da equipe, evitar discursos longos.

2. Impacto máximo no menor tempo possível

Carlos et al(2), em 2016, desenvolveu quatro estratégias mnemônicas para otimizar o ensino na terapia intensiva. A abordagem CARE é fácil de ser memorizada e aplicada e consiste em:

  • C (Clima): comece avaliando as expectativas do paciente e peça permissão para conversar com ele e alunos, preparar previamente as expectativas dos alunos ao abordarem o paciente, explicar corretamente o quadro clínico para o paciente sem utilizar "jargões médicos", encorajar a participação dos alunos na interação com o paciente.
  • A (Atenção): planejar antecipadamente as discussões, manter alunos focados no momento (evitar distrações externas, exceto urgências), manter o conteúdo relevante para todos os alunos (residentes, internos, estagiários), saber liderar.
  • R (Raciocínio): encorajar a criação de hipóteses, fazer perguntas relevantes sobre o caso, evitar "adivinhações", criar caminhos para que os alunos cheguem as suas próprias conclusões pensando fisiopatologicamente.
  • E (Evaluation - avaliação): evitar críticas direcionadas, encorajar a reflexão e aprofundamento do tema, fornecer feedback aos alunos, estar aberto ao feedback dos alunos.

3. Ensinando procedimentos

Precedimentos são pontos fundamentais para o intensivista. Aprender a técnica correta e saber resolver as possíveis complicações é importantíssimo para o aluno. Saweyer et al.(3) propõe em seu artigo algumas técnicas de ensino de procedimentos:

  • Leitura e apresentação de vídeos, observar o instrutor realizar o procedimento, praticar em um simulador, supervisão direta da técnica no paciente, promover a educação continuada.

Sabemos que os desafios do ensino da terapia intensiva no Brasil são muitos: unidades com poucos recursos, médicos/instrutores não capacitados para o ensino, dificuldade de praticar em simuladores, tempo curto, desvalorização do médico/instrutor se dedicar ao ensino.

Porém,sabemos que o aperfeiçoamento do ensino a beira do leito é ponto fundamental na formação de alunos e residentes de terapia intensiva. Entender a dinâmica da UTI, o processo fisiopatológico, ser resolutivo nas situações críticas, ter empatia com os membros da equipe multidisciplinar, aprender a ser líder e futuramente transmitir todo o conhecimento adquirido ao longo dos anos para a formação de futuros intensivistas. 

 

Referências

  1. Pratical Tips for ICU bedside teaching. Chest oct 2018.
  2. Maximal Impact in Minimal time. Ann Am Thorac Soc. 2016; 13(4) 545-48
  3. Learn, see, practice, prove, do, maintain: an evidence-based pedagogical framwork for procedural skill training in medicina. Acd Med 2015;90(8):1025-33

Leia também os outros artigos da série sobre Ensino Médico, publicado pela Dra. Roberta Fittipaldi.

 

Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Professora da Pós graduação em Terapia Intensiva HIAE. Cursando doutorado em Pneumologia FMUSP. Médica Assistente UTI Respiratória FMUSP.

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