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Problem-Based Learning (PBL): analisando o centro do problema

Problem-Based Learning (PBL): analisando o centro do problema

Confesso que relutei um pouco para escrever esse post, afinal, cada um tem uma experiência pessoal com Problem-Based Learning (PBL), o que beira uma questão de amor x ódio.

Dessa forma, nesse post da série de educação que escrevo aqui na Academia Médica, gostaria de trazer um overview do método e um pouco da minha experiência como docente na graduação, pós-graduação e educação continuada do médico.

O PBL surgiu em meados dos anos 70, na Universidade de McMaster. Naquela época, docentes já entendiam que o ensino da medicina precisava de um método que motivasse o aluno e trouxesse habilidades para exercer a medicina de forma mais ampla. Através da observação do desinteresse e da saturação dos alunos com milhões de disciplinas que muitas vezes não faziam sentido para a prática médica, em 1969, Spaluding descreveu a necessidade de criar um novo approach que motivasse o aluno: “a atual insatisfação na educação médica impõe as escolas médicas a responsabilidade de implementar novos métodos de ensino”. E, dessa forma, o PBL se popularizou em diversas universidades do hemisfério Norte.

Durante esses quase 50 anos de PBL, foram realizadas diversas adaptações, visando aproximar a realidade de alunos de medicina ao redor do mundo. Porém os princípios básicos desenvolvidos na Universidade de McMaster ainda são atuais e importantes para um entendimento global do método e melhoria na sua aplicabilidade.

Sendo assim, trago aqui a descrição original do PBL, com devidos comentários de quem viveu a sua implementação no cenário universitário brasileiro.

 

Student-centred learining (aprendizado centrado no aluno)

Nesse princípio, a figura do professor com o detentor absoluto do conhecimento, difusor de informações em cima de um palanque no centro da sala de aula se anula. O professor se transforma em um tutor, que vai guiar e orientar o conhecimento e aprendizado do estudante. O aluno, por sua vez, é parte ativa do seu aprendizado, utilizando diversos meios para obtê-lo (livros,artigos, vídeos, podcasts...)Esse princípio permite que o estudante personalize o seu método de estudo, concentre-se em áreas do seu interesse e seja um consultor do seu aprendizado. A questão é que muitos estudantes ingressam na graduação, imbuídos de metodologias de ensino antigas e se deparam com um método que fornece extrema independência ao seu aprendizado, o que requer tempo e amadurecimento acadêmico.

Por outro lado, nem todos os “cérebros” pensam da mesma forma neurocognitiva e se adaptam a esse tipo de aprendizado, pois alguns retém melhor o conhecimento auditivo do que visual, por exemplo, e muitas vezes o estudante não sabe disso ainda. Leva um certo tempo para que ele e seu tutor-professor entendam a melhor forma. Às vezes, esse tempo já percorreu um semestre. Entender essa particularidade de cada aluno torna-se um desafio para tutores-professores e alunos-aprendizes.

Small Group Learing (aprendizado em pequenos grupos)

A neurociência nos diz que quando aprendemos em grupo, otimizamos nosso poder de socialização, interação e isso ajuda a ativar diversas áreas cerebrais, o que contribui para o surgimento de novas conexões nas áreas de memória e aprendizado. Pequenos grupos de 5-9 alunos são ideais e, após cada atividade, a mistura dos integrantes de cada grupo. Essa técnica permite um aprendizado social e acadêmico intenso e efetivo com diferentes pessoas e experiências. Muitos estudantes se identificam com essa técnica, uns apoiando os outros em pontos de dificuldades, isso aproxima os alunos e cria um círculo de troca de experiência fundamental no meio acadêmico.

Professores como facilitadores ou guias

Segundo o texto da Universidade McMaster, os professores atuam como tutores. Não é um indivíduo que simplesmente oferece uma aula formal ou informação factual, não diz aos alunos se eles estão certos ou errados. O tutor sabe utilizar a metacognição (leia o texto sobre metacognição aqui) para guiar o aluno ao melhor nível de conhecimento. Deve levar o aluno a conhecer o seu nível de conhecimento, e perguntar a ele, em todos momentos, qual a melhor forma de manejar e resolver determinado problema, estimulando o pensamento criativo e crítico. No entanto, em algumas universidades ainda vemos professores que não se julgam tutores e sim detentores absolutos de um conhecimento estático e que muitas vezes não permitem o pensamento crítico.

Problemas através da organização do foco e de estímulos de aprendizado

No método PBL, um desafio diagnóstico ou um problema de saúde pública é abordado de forma lúdica através de relatos de casos, vídeos ou simulações, que representam os desafios que os estudantes irão enfrentar na prática clínica. Acredito que esse é um dos fatores mais estimulantes do PBL, simular o dia a dia da medicina de verdade, trazer o aluno para aproximo da realidade. Dessa forma não só permite o aprendizado de competências, mas também estimula a obtenção de habilidades, nas quais os alunos possam se identificar para delinear sua futura especialidade. Nesse tópico, também vemos o direcionamento das disciplinas básicas para a sua verdadeira aplicabilidade na prática.

Problemas são um veículo de desenvolvimento de habilidades 

Esse tópico contempla que o problema resolvido seja igualmente real ao encontrado prática. Permitir que o estudante faça perguntas, examine o paciente ou exames laboratoriais, permitir o raciocínio clinico “livre”, é importante, mas muitas vezes o aluno que está começando a integrar conceitos ainda precisa da ajuda do professor-tutor. O tutor permite a livre expressão do aluno e, somente após o problema concluído, faz as devidas observações. Nesse momento, alguns alunos se perdem, cabendo ao professor-tutor entender que cada aluno tem o seu momento de raciocínio clínico e guiando-os da melhor forma possível.

Esses são os  cinco pilares básicos do PBL, que obviamente estão sendo aperfeiçoados ao longo do tempo a da nossa realidade.

Meu objetivo aqui não é convencer ninguém de que uma metodologia ativa de ensino é superior a outra, porque isso não existe. O que existem são diversas técnicas, que aliadas à necessidade de cada curso e a uma boa didática e dedicação dos professores, chegam ao objetivo de um aprendizado de excelência.

Ao longo da minha experiência como professora da graduação, pude perceber que nem todos os alunos se sentem confortáveis com essa metodologia, que cada aluno tem seu tempo para absorver determinado conhecimento,  que nem todos os professores se sentem completamente seguros com o PBL para garantir que o conhecimento necessário foi absorvido. Muitos alunos e professores gostam de mesclar a dinâmica do PBL com aulas expositivas tradicionais. O que ao meu ver, possui resultados positivos e mantém alunos e professores estimulados.

 Acredito que temos uma grande jornada pela frente para atingir um ensino médico de excelência no nosso país, partindo principalmente da valorização do professor, da sua capacitação e fidelização frente às instituições de ensino. Por outro lado, entender a necessidade desse aluno que vive um “boom” de informações “right on time”, que é ávido para viver experiências práticas e que precisa de motivação para se manter atendo é um grande desafio para jovens professores.

E você? Já teve experiência com o PBL?
Conta para a gente!

 

Leia também os outros artigos da série sobre Ensino Médico, publicado pela Dra. Roberta Fittipaldi.

 

Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Professora da Pós graduação em Terapia Intensiva HIAE. Cursando doutorado em Pneumologia FMUSP. Médica Assistente UTI Respiratória FMUSP.

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