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O que fazer e o que não fazer na consulta com um paciente vegetariano

O que fazer e o que não fazer na consulta com um paciente vegetariano

 

Sou vegetariana há 14 anos. Não consumo nenhum tipo de carne. Ovos, leite e derivados, entram ocasionalmente na minha alimentação. Neste período, já passei pelas mais diversas situações em consultas com profissionais de saúde, em especial, médicos. Resolvi escrever este texto para compartilhar um pouco da minha visão sobre o tema, tanto como paciente como quanto futura médica, e trazer também algumas evidências científicas importantes.

A decisão de se tornar vegetariano perpassa diversos princípios, tais como religiosos, ambientais, filosóficos, éticos e relacionados à saúde. Por isso, tentar convencer o paciente de que ele deve voltar a comer carne é um tiro no pé: além de impossibilitar já de cara uma boa relação médico-paciente, demonstra, a um paciente bem informado, que o médico é desatualizado e não tem conhecimento sobre nutrição, o que é fato na grande maioria das vezes.

Um estudo mostrou que, em média, os estudantes de medicina dos Estados Unidos recebem somente 24 horas de treinamento nutricional ao longo de toda a graduação, apesar do papel central que a alimentação exerce na fisiopatologia das doenças, e também como forma de tratamento. Sendo assim, meu primeiro grande conselho é: se você leitor, como médico, não entende de alimentação e muito menos de dietas vegetarianas, encaminhe o seu paciente para um profissional que tenha formação e conhecimento para tanto.

O segundo ponto que quero trazer neste artigo é: não trate o paciente vegetariano como alguém doente. A Academia de Nutrição e Dietética, em consenso com a Organização Mundial da Saúde, tem como posicionamento que dietas vegetarianas adequadamente planejadas, incluindo veganas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem fornecer benefícios à saúde para a prevenção e tratamento de certas doenças. Esse tipo de alimentação é apropriado para todas as fases do ciclo de vida, incluindo gravidez, lactação, infância, adolescência, idade adulta e para atletas. As dietas à base de plantas são mais sustentáveis ​​do ponto de vista ambiental do que dietas ricas em produtos animais, porque usam menos recursos naturais e estão associadas a danos ambientais muito reduzidos.

Além disso, vegetarianos e veganos têm risco reduzido de certas condições, incluindo doenças cardíacas isquêmicas, diabetes tipo 2, hipertensão, certos tipos de câncer e obesidade. Baixa ingestão de gordura saturada e alta ingestão de vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, produtos de soja, nozes e sementes (todos ricos em fibras e fitoquímicos) são características de dietas vegetarianas e veganas que produzem níveis mais baixos de colesterol total e lipoproteína de baixa densidade e melhor controle da glicose sérica. Esses fatores contribuem para a redução da incidência de doenças crônicas não transmissíveis.

Um profissional uma vez afirmou que eu teria demência por "não me alimentar corretamente". Em oposição, um recente estudo publicado da revista Nutrients destacou a importância que a ingestão de alimentos vegetais in natura ou minimamente processados tem na prevenção do envelhecimento cognitivo. Este mesmo profissional, em uma consulta posterior, trouxe à tona a sua "preocupação" com a minha ingestão de proteínas. Esse mero comentário me diz que ele não prestou atenção nas aulas de biologia básica da escola, uma vez que lá aprendemos que, na verdade, são as plantas, em associação ecológica com uma série de microorganismos, que incorporam o nitrogênio da atmosfera e produzem os aminoácidos existentes em todos os animais. Ele também deve ter se esquecido que a simples combinação de um grão com uma leguminosa (como o nosso precioso arroz com feijão) fornece todos os aminoácidos essenciais (aqueles que não conseguimos produzir).

Alguns profissionais ainda debocham de seus pacientes quando estes necessitam de alguma suplementação, como se dissessem "já que precisa repor alguma vitamina ou mineral, é porque a dieta é insuficiente e inadequada". Veja bem, em diversas fases da vida, e dependendo das condições orgânicas do indivíduo, a suplementação nutricional se faz necessária. Tanto é que no nosso país o sal é iodado, a farinha de trigo é enriquecida com ferro e ácido fólico, todos os bebês recebem suplementação de ferro e vitamina D, a todas as gestantes são prescritos ferro e ácido fólico, e não vamos nos esquecer das milhares de pessoas que utilizam whey protein embora consumam níveis adequados de proteína.

Outro grande mito que muitos médicos repetem por aí é sobre os "perigos" do consumo de soja. A soja não causa câncer, infertilidade, osteoporose, feminilização de homens, problemas de tireoide, alergias, problemas psicológicos, entre outros. A única cautela é para pacientes com alergia. Aqui vale lembrar que somente um quinto da produção mundial de soja é utilizada para consumo humano (alimentar, cosmético, entre outros), ao passo que o restante é utilizado para a pecuária.

Poderia me delongar por mais infinitos parágrafos relatando os absurdos que os pacientes vegetarianos ouvem de seus médicos. No entanto, encaminho este texto para o fim trazendo alguns pontos importantes sobre o que efetivamente um profissional deve se atentar:

  • Busque sempre realizar uma boa anamnese e exame físico adequado em todos os pacientes. Em alguns casos, exames laboratoriais de dosagem sérica podem ser necessários. Em vegetarianos, as principais deficiências às quais você deve se atentar são de ferro, zinco e vitamina B12 séricos - atentar-se não somente ao hemograma, mas também a dosagens de ferro sérico, ferritina, homocisteína e outras. Veganos têm maiores chances de deficiência de cálcio, mas isso pode ser facilmente evitado com cuidados na dieta;
  • Caso o seu paciente esteja com alguma deficiência nutricional, esta deve ser tratada por via de suplementação. Orientar que o paciente vegetariano inclua carne vermelha duas ou três vezes na semana para corrigir uma anemia ferropriva é inútil (se fosse útil, nenhum paciente onívoro teria anemia, certo?);
  • Mulheres em geral têm maior risco de anemia por causa do sangramento menstrual. A deficiência de ferro é a mais comum no mundo, e seu diagnóstico pode passar despercebido. Logo, vegetarianas também devem ser minuciosamente investigadas e, caso necessário, tratadas;
  • A vitamina B12 é produzida por bactérias. Para nós, atualmente e em quantidade, ela é disponibilizada em sua forma ativa somente em alimentos de origem animal, como carne, ovos, leite e derivados. No entanto, os próprios animais de criação são suplementados com essa vitamina, e estima-se que cerca de 40% da população em geral tenha deficiência de B12, seja por erros inatos no metabolismo, seja por fatores genéticos, seja por hipocloridria gástrica;
  • Oriente o paciente a buscar hábitos de vida saudáveis como: ingerir grandes quantidades de frutas, verduras, grãos, sementes e leguminosas. Também é importante minimizar o consumo de alimentos ultraprocessados como bolachas recheadas, refrigerantes, temperos prontos e produtos industrializados.
  • Também são considerados hábitos saudáveis do paciente: ter momentos de relaxamento, praticar exercícios físicos, ter uma vida ativa e abandonar o tabagismo;
  • Por fim, acredito que seja imprescindível se manter atualizado com evidências científicas e jamais julgar o paciente.

Termino esse texto trazendo o dado de que, segundo uma pesquisa de 2018 do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), cerca de 14% dos brasileiros se declaram vegetarianos atualmente. Considerando a estimativa oficial do IBGE sobre o total da população brasileira, são cerca de 29,2 milhões de vegetarianos. Você, profissional médico, se sente preparado para lidar com esse público? 

 

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Referências

  1. Melina V, Craig W, Levin S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. J Acad Nutr Diet. 2016 Dec;116(12):1970-1980. doi: 10.1016/j.jand.2016.09.025. PMID: 27886704. Disponível em https://www.jandonline.org/article/S2212-2672(16)31192-3/fulltext
  2. Adams KM, Lindell KC, Kohlmeier M, Zeisel SH. Status of nutrition education in medical schools. Am J Clin Nutr. 2006;83(4):941S-944S. doi:10.1093/ajcn/83.4.941S. Disponível em https://academic.oup.com/ajcn/article/83/4/941S/4649273
  3. Dominguez LJ, Veronese N, Baiamonte E, Guarrera M, Parisi A, Ruffolo C, Tagliaferri F, Barbagallo M. Healthy Aging and Dietary Patterns. Nutrients. 2022 Feb 20;14(4):889. doi: 10.3390/nu14040889. PMID: 35215539; PMCID: PMC8879056. Disponível em https://www.mdpi.com/2072-6643/14/4/889/htm
  4. Nogueira-de-Almeida, Carlos Alberto et al. Impact of soy consumption on human health: integrative review. Brazilian Journal of Food Technology [online]. 2020, v. 23 [Accessed 14 March 2022] , e2019129. Available from: <https://doi.org/10.1590/1981-6723.12919>. Epub 16 Nov 2020. ISSN 1981-6723. https://doi.org/10.1590/1981-6723.12919. Disponível em https://www.scielo.br/j/bjft/a/j3DwSjZ7PV5FwJDrmN8wXqt/?lang=en#
  5. AGÊNCIA BRASIL. No Brasil, 14% da população se considera vegetariana.  Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-10/no-brasil-14-da-populacao-se-considera-vegetariana

 

Academia Médica
Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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