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Estudo mostra alta prevalência de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático após COVID-19 no Brasil

Estudo mostra alta prevalência de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático após COVID-19 no Brasil

 

Existe a necessidade de uma melhor caracterização do perfil de morbidade psiquiátrica e neuropsicológica aguda e crônica entre as vítimas de COVID-19 e o papel desempenhado por múltiplos componentes fisiopatológicos relacionados à gravidade/estadiamento da doença e às características clínicas dos indivíduos. Estudos transversais abordando a incidência de anormalidades psiquiátricas e cognitivas nos casos agudos e graves de infecção por SARS-CoV-2 destacam a ocorrência de delírio, encefalopatia, comprometimento cognitivo , insônia, psicose e sintomas de humor. 

Em relação a sintomas crônicos, há estudos longitudinais realizados em coortes pós-COVID-19 que demonstraram alta prevalência de sintomas psiquiátricos na 'fase longa' da doença, ou seja, ansiedade, depressão, fadiga e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). No entanto, essas pesquisas muitas vezes falham em diferenciar indivíduos infectados de não infectados, bem como pacientes com casos assintomáticos, leves, moderados e graves, que podem apresentar características fenomenológicas diferentes.

Neste sentido, um grupo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) buscou avaliar pacientes que haviam sido internados por pelo menos 24 horas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), unidade médica terciária de base universitária responsável pelo atendimento de casos moderados e graves de COVID-19 no Brasil. A 'coorte pós-COVID-19 do HCFMUSP' foi constituída para facilitar estudos multidisciplinares abordando desfechos médicos, funcionais e neuropsiquiátricos de longo prazo entre adultos e idosos que sobreviveram a formas moderadas ou graves de COVID-19. Os indivíduos foram avaliados 6 a 9 meses após a alta hospitalar por meio de entrevistas estruturadas e protocolos de avaliação pertencentes a uma equipe médica interdisciplinar. Os resultados foram divulgados no periódico General Hospital Psychiatry.

Todos os participantes foram submetidos a uma bateria de testes cognitivos para avaliação de habilidades como memória, atenção, fluência verbal e orientação espaço-temporal. Os voluntários também passaram por uma entrevista estruturada com um psiquiatra e responderam a questionários padronizados usados no diagnóstico de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

O estudo contou com a participação de 425 pacientes que se recuperaram de formas moderadas e graves da COVID-19. Segundo os pesquisadores, 51,1% dos participantes relataram ter percebido declínio da memória após a infecção e outros 13,6% comunicaram terem desenvolvido transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) foi diagnosticado em 15,5% dos voluntários, sendo que, em 8,14% destes, o problema surgiu após a infecção pelo Sars-CoV-2. Já o diagnóstico de depressão foi estabelecido para 8% dos pacientes – em 2,5% deles somente após a internação.

Como descrevem os autores no artigo, um achado relevante é que as alterações cognitivas ou psiquiátricas observadas não estão relacionadas com a magnitude do quadro clínico. Também não houve associação com a conduta adotada no período de hospitalização ou com fatores sociais, como perda de familiares, ou econômicos, como prejuízos financeiros durante a pandemia de COVID-19.

A prevalência de transtorno mental comum, tais como sintomas depressivos, estados de ansiedade, irritabilidade, fadiga, insônia, dificuldade de memória e concentração no grupo estudado foi de 32,2%, ao passo que para a população brasileira em geral esta prevalência gira em torno de 26,8%.

Nesses pacientes, a prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (14,1%) foi consideravelmente maior do que a média dos brasileiros (9,9%). A prevalência de depressão encontrada (8%) também é superior à estimada para a população geral do país (entre 4% e 5%).

Para o grupo de pesquisa, o fato de não ter sido encontrada correlação clara entre a gravidade da COVID-19 e a condição psiquiátrica vai ao encontro da hipótese de que alterações tardias relacionadas à infecção pelo SARS-CoV-2 teriam papel na origem dos transtornos.

 

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Referências:

Damiano RF, Caruso MJG, Cincoto AV, de Almeida Rocca CC, de Pádua Serafim A, Bacchi P, Guedes BF, Brunoni AR, Pan PM, Nitrini R, Beach S, Fricchione G, Busatto G, Miguel EC, Forlenza OV; HCFMUSP COVID-19 Study Group. Post-COVID-19 psychiatric and cognitive morbidity: Preliminary findings from a Brazilian cohort study. Gen Hosp Psychiatry. 2022 Jan 6;75:38-45. doi: 10.1016/j.genhosppsych.2022.01.002. Epub ahead of print. PMID: 35134702; PMCID: PMC8734055.

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