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O médico por todos e ele por si.

O médico por todos e ele por si.
ARTHUR AMARAL DE SOUZA
set. 7 - 6 min de leitura
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Se não cuidarmos de nossa saúde, ninguém cuidará...

Não precisou muito tempo após me formar para perceber o quanto nós médicos somos descuidados com nós mesmos e que quase ninguém se importa com nossa saúde...

Sabe aquele ditado: faça o que digo, mas não faça o que faço!? Pois é, infelizmente isso é uma realidade que permeia boa parte de nós. Muitas vezes é involuntário e vamos no automático, esquecendo assim de coisas básicas como: beber aguá no meio do plantão, se alimentar de 3 em 3h ou dormir 8h por noite.

Expostos e de acordo com nossas próprias regras, ficamos sujeitos a muitas demandas: ESF, plantões consecutivos, residência médica, clínicas e serviço militar; some tudo isso a: pressão por produtividade, baixos salários e limitações devido ao sucateamento da saúde pública; desse modo vamos nos tornamos vítimas desse caos e de nós mesmos. 

Com o passar do tempo a falta de cuidado perpassa o meio físico e nos atinge a nível psíquico: Passamos então a dormir cada vez menos, a ter menos tempo para lazer, a ter menos tempo para nossa família, amores, amigos; e assim a vida vai passando por nós! E nossos dias se resumem a: quanto tempo falta para acabar o plantão...?

As 12h viram insuficientes e achamos que é possível dá 24h, achando pouco devido muitas vezes aos bens não duráveis ou/e duráveis que queremos adquirir, torna-se necessário dá 36h, 48h, e acredite 72h de plantão... O preço pelo ter, pelo possuir, ou pelo simples Status, torna-se muitas vezes alto demais.

E o ciclo segue: um café para acordar, um cigarro para acalmar, um doce para sorrir, uma dose para relaxar, um remédio para dormir... Seguimos adoecendo.

Ora, se então nós mesmo não cuidamos de nós, não será outrem que fará...

A sociedade espera nada menos que a perfeição de nós, assim como nossos pacientes; na cabeça de muitos, médico não dorme, não cansa, não adoce, não sofre, não tem necessidades fisiológicas. Precisamos estar sempre alertas, e prontos para o que vier; sofrer assédio moral também não há problema, afinal, ganhamos tão bem que não custa nada um atestado para vizinho, uma receita sem ver o paciente, um laudo, uma consulta por whatsapp...

Nesse montante adicione: 06 longos anos na faculdade, onde pouco se aborda temas como: finitude, o sofrer, a ética médica, o autocuidado ou medicina financeira... As faculdades em sua maioria ainda formam médicos nos moldes cartesianos e tecnicistas do século passado: seguem errando e nos formando para sermos heróis, salvadores, e esquecem de nos ensinar que também somos humanos finitos e falhos.

 

Juntando todos esses pontos o resultado não podia ser outro:

- De acordo com a mais recente pesquisa do Medscape¹, 44% dos médicos entrevistados em  reportaram sofrer de burnout, 11% se definiram como “deprimidos” e 4% receberam o diagnóstico de depressão. A pesquisa mostrou também que o número de médicos que têm pensamentos suicidas aumentou no último ano. No total, 14% reconheceram pensar em suicídio.

- Só nos Estados Unidos, entre 300 e 400 tiram a própria vida todos os anos, segundo a Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio. Praticamente uma morte por dia. "Estudos recentes têm apontado uma cifra três vezes maior de suicídio entre médicos, comparada à população em geral", diz Alexandrina Meleiro, doutora em psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). 

Nós médicos somos péssimos em cuidar de nós e só olhando para si, poderemos cuidar melhor do outro; é necessário algumas vezes abrir mão de algumas coisas para podermos viver melhor e com mais sanidade mental. Portanto, minha sugestão  é:

  • Trabalhe menos;
  • Busque exercer sua profissão o mais próximo possível de sua casa; 
  • Dê menos plantões;
  • Evite trabalhar nos finais de semana;
  • Tente dormir mais;
  • Tire algum momento do dia para uma atividade física ou seja lá qual for seu lazer; 
  • Escolha sim ganhar menos, e assim viver mais. 

Obs: Sabemos que nem sempre é escolha: questões financeiras, familiares, filhos, FIES, residência, dentre outras causas podem acabar ceifando essas possibilidades, mas ainda assim, busque o que foi supracitado.

Às vezes, o vislumbre da conta bancária nos cega, mas não podemos permitir essa insanidade. Somos humanos, somos falhos e sociáveis, não é possível ter qualidade de vida diante de tanto trabalho e abdicando de nossas famílias e amigos e de nossa própria vida.

Se não tomarmos consciência disso, ninguém tomará por nós, poucos são os que entendem nossas limitações, e dessa forma o que continuaremos a assistir dia após dia serão nossos colegas ou nós mesmos, afundando na depressão, vivendo de aparências e por fim tirando nossas próprias vidas. 

A medicina é sim um ato divino, uma dádiva de Deus, um sacerdócio, exercê-la com amor, é absurdamente gratificante e belo, mas ainda assim, é desgastante e cansativa, e é por isso que temos que saber o momento de frear, de diminuir o ritmo de abdicar um pouco da labuta diária e dos prazeres momentâneos para não transformarmos essa arte tão linda em nossa própria ruína.

"O cofre do banco contém apenas dinheiro, frustra-se quem pensa que lá encontrará riqueza..."

Carlos Drummound de Andrade

Referências:

¹ Burnout Rises Above 50% in Some Specialties, New Survey Shows – Medscape – Jan 17, 2019

https://tab.uol.com.br/medicos-suicidio/#tematico-3

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