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Médicos: coloquem a máscara de oxigênio em vocês por primeiro!

Médicos: coloquem a máscara de oxigênio em vocês por primeiro!

Estava dentro de um avião prestes a decolar quando a comissária de bordo começou a explicar os procedimentos de decolagem, pouso e emergências. 

"Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Coloque primeiro a sua e só então auxilie quem estiver ao seu lado".

Chega a ser um pouco estranho imaginar que uma mãe irá primeiro socorrer a si do que ao seu filho, por exemplo. Parece que vai contra a natureza humana de proteção dos mais fracos. No entanto, esta orientação faz muito sentido: como poderíamos ajudar outras pessoas se estivéssemos desacordados? Nunca passei por uma situação na qual precisasse usar a tal máscara, mas refletir sobre isso fez com que eu trouxesse algumas lições para a minha vida.

Na transição do primeiro para o segundo ano da faculdade de Medicina fui diagnosticada com Síndrome de Burnout. Marquei um consulta com a psiquiatra pois estava com queixas de ansiedade (coisa que nunca tinha me atrapalhado) e dificuldade para estudar e realizar boa parte das coisas que eu precisava e queria fazer.

As diversas demandas do curso, fora o trabalho que eu tinha por fora e os compromissos pessoais estavam me devorando. Eu, que sempre busquei a excelência e o perfeccionismo sentia que estava deixando os outros na mão. Na tentativa de melhorar a minha performance e buscar dar conta de tudo, eu ainda me entulhava de mais coisas. Esqueci o autocuidado. Esqueci de mim. 

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A médica, de forma muito doce e sensata, me jogou a real: "Carol, você está exausta. Você está esgotada.". Percebi que fazia semanas que eu não sentava no sofá da minha casa. Assistir um filme e comer uma pipoca eram perda de tempo. Estar com a minha família? Tinha hora de começar e hora de terminar. Não estava dormindo direito, me alimentava de qualquer jeito e exercício físico tinha ficado em segundo plano. Precisava estudar mais e mais e mais. 

Mais ou menos nesta mesma época eu assisti o TedTalk do médico Dr. Ed Ellison: "Doctors in Distress: Saving the Lives of Those Who Save Lives". A chocante realidade dos médicos e estudantes de medicina também evidenciada pelos relatórios anuais do Medscape (Medscape National Physician Burnout & Suicide Report) me acendeu um alarme.

Não queria fazer parte daquelas tristes estatísticas. O relatório do ano de 2021 ainda trouxe as estatísticas relacionadas ao acréscimo nas taxas de distúrbios psiquiátricos causado pela pandemia de COVID-19. Foram entrevistados, nesta edição, mais de 12 mil profissionais em 29 especialidades. 

Mais de 70% dos participantes que afirmaram ter Burnout consideram que este tem um impacto significativamente moderado em sua qualidade de vida. Cerca de 10% consideraram a situação séria o suficiente a ponto de largarem a profissão, dado alarmante se considerarmos o tempo percorrido para nos formarmos médicos.

A pesquisa também buscou descobrir as "válvulas de escape" dos profissionais, como eles fazem para lidar com a situação de Burnout. Assim como nos anos anteriores, a prática de exercícios físicos continua a ser uma forma popular de lidar com o estresse (48%), mas o consumo de bebida alcoólica e o excesso de junk food aumentaram consideravelmente, atingindo porcentagens de 26% e 35%, respectivamente. Além disso, 53% dos médicos participantes com depressão relataram que a sua condição afeta a relação com seus pacientes de forma negativa. 

Sabemos que os médicos representam a classe profissional que, proporcionalmente, mais comete suicídio no mundo. Nesta edição do relatório da Medscape, 13% dos participantes relataram ideações suicidas, e 1% chegou à tentativa. Todos os anos perdemos colegas de faculdade e/ou de profissão para uma doença para a qual existe tratamento.

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Igualmente alarmante é a estatística a respeito da procura por ajuda profissional: 46% dos entrevistados afirmaram que conseguem lidar com sua depressão/Burnout sem o auxílio de um profissional da área. Neste quesito, entram o receio de que outros colegas descubram o tratamento, as possíveis repercussões profissionais que isso poderia trazer, e a característica quase inerente aos estudantes de Medicina e médicos: nós somos ensinados a não pedir ajuda. Existe ainda a "glamurização" da vida corrida, e a crença de que para ser um bom profissional você tem que se doar por inteiro. "Faz parte da profissão não ter tempo para dormir". "Vai fazer medicina? Ihhh pode esquecer essa história de ter família". "Ué, como assim você está vendo um filme? Você não tem que dar plantão não?".  Mas como podemos nos doar por inteiro se estamos quebrados?

As qualidades que fazem um bom médico são também aquelas que podem minar a vida deste. Se dedicar exaustivamente ao outro pode tirar por completo a qualidade de vida de um cuidador, em especial um médico. 

 

 

Por isso, eu decidi fazer diferente. A Medicina é uma profissão que, se deixarmos, nos suga. A carga horária da faculdade é extenuante, da residência nem se fala (além de ser extremamente mal remunerada) e a carreira do especialista pode ser recheada de situações pesadas e desestimulantes, como a perda de pacientes, as péssimas condições de trabalho, o excesso de burocracia, a constante e extenuante necessidade de atualização. Parece que estamos correndo contra o tempo. E, pelas leis da física atuais, isso não é possível, certo? Aprendi a dizer não para os outros e para mim mesma. Decidi que iria reservar algum tempo para mim todos os dias. Leitura não médica, exercício físico, cozinhar, passar tempo com pessoas queridas, estar em contato com a natureza, excluir futilidades. É difícil, eu sei. Com certeza haverá horas de aperto, em que precisarei me dedicar um pouco mais às obrigações da Medicina. Mas não posso jamais me permitir ficar longe da minha essência. Ficar sem oxigênio. Preciso estar bem para ajudar os outros.

Hoje desejo que você, colega, também se permita respirar. Há oxigênio suficiente para todos.

 

"Às vezes, eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã. Este é um ótimo exercício."

Lewis Carroll

 

Referências:

'Death by 1000 Cuts': Medscape National Physician Burnout & Suicide Report 2021. Disponível em: https://www.medscape.com/slideshow/2021-lifestyle-burnout-6013456

 

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Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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