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A faculdade de Medicina te deixou infeliz?

A faculdade de Medicina te deixou infeliz?

Cursinho, aulas, apostilas, resumos, memorex, outras aulas, simulados, noites sem dormir, ansiedade, redação, mais aulas, revisão, maratona de vestibular, espera, lista de aprovados, Uhulll!, banho de lama, matrícula, estetoscópio de presente, Netter ou Sobotta... Finalmente a felicidade de cursar a faculdade de medicina vai começar. Será?

Quem entre nós, acadêmicos ou médicos já formados, não lembra de como o tão almejado sonho de entrar em uma faculdade de medicina alcançou seu ápice com o nome na lista dos aprovados e as inquietações das primeiras semanas de aula como acadêmicos? É, mais aí veio a Fisiologia, a Anatopatologia, a Bioestatística, a Neuroanatomia (😱), os seminários, as provas finais... (e mais recentemente o EaD!) e qual não foi a sua surpresa em perceber que aquela sensação tão boa de estar tão pertinho da Medicina estar desaparecendo lentamente?

Se vocês está nos primeiros anos da faculdade, fique tranquilo! Não, você não fez a escolha errada para sua carreira (provavelmente). Se você já é formado, deve lembrar que nos últimos anos do curso, a tal "felicidade" de cursar Medicina vai voltar a ser um sintoma persistente. E, embora a autora que aqui escreve esse texto ainda seja uma acadêmica (sem poderes de prever as sensações futuras durante a graduação), as informações que serão apresentadas a seguir podem ser lidas com atenção, pois foram escritas com base no artigo A relação entre a percepção dos alunos sobre o ambiente educacional e sua felicidade subjetiva, publicado pela BMC Medical Education, em novembro de 2019, e outros artigos sobre a mesma temática.

 


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Médico bom ou médico feliz?

Segundo o artigo publicado na BMC, a graduação médica tem buscado formar "médicos competentes" que integrem conhecimentos, habilidades e atitudes alinhadas com as necessidades de saúde da população. Mas há preocupações se tudo isso não estaria ocorrendo ao custo do esgotamento dos acadêmicos, com situações cada vez mais frequentes de estresse, depressão e alarmantes taxas de bournout com os currículos. O que você acha, colega acadêmico ou médico?

Uma possível razão para esses efeitos, mas não a única, é que as competências enfatizadas atuam como impulsionadoras de estresse e esgotamento, porque foram adicionadas a um currículo já superlotado (quase 10 mil horas de grade curricular em algumas universidades!).

Mas o que significa ser um “médico feliz” além da mera retórica? 

Já não é de hoje que estamos ouvindo relatos de alarmante taxa de burnout e sintomas depressivos entre médicos em atividade, residentes e também entre estudantes de medicina e o cuidado com o desenvolvimento pessoal, além do conhecimento e habilidades médicas, tem ficado em uma posição secundária. Mas é importante lembrar que o objetivo de formar um bom médico não deve necessariamente excluir a possibilidade de formar médicos felizes.

Estudos existentes sobre a felicidade geralmente a definem como uma “avaliação global da qualidade de vida de um indivíduo de acordo com seus próprios critérios”. Neste caso, a felicidade pode ser entendida como um julgamento subjetivo influenciado por fatores ambientais, então a felicidade dos estudantes de medicina é afetada pelo ambiente educacional, que constitui as principais partes físicas, temporais e relacionais de suas vidas.

A percepção de um ambiente educacional afeta não apenas o desempenho acadêmico dos alunos, mas também a formação de sua identidade profissional. Isso também já foi destacado em outros estudos que fornecem algumas evidências para a suposição de que um ambiente de aprendizagem percebido positivamente contribui para um melhor desempenho acadêmico.

Estudos também sugerem alta prevalência de burnout entre internos, com níveis mais elevados do que na população em geral. Esse esgotamento pode prejudicar o desenvolvimento profissional, colocar os pacientes em risco e contribuir para uma variedade de consequências pessoais, incluindo ideação suicida (um assunto tabu na educação médica, mas que tem apresentado números alarmantes e que precisam ser olhados com atenção).
 

Como se manter feliz e sem estresse? Isso é mesmo possível

O artigo "Se um a cada cinco médicos é afetado por burnout, o que dizer dos outros quatro?" traz algumas práticas que médicos (e adaptamos neste texto para acadêmicos também) podem fazer para que mantenham uma rotina feliz com a profissão e com os estudos, lidando de forma mais estratégica com os  fatores de estresse. Confira a seleção de 10 delas logo abaixo.

1. Pratique atividade de lazer para reduzir o estresse:  a atividades de lazer e principalmente a esportiva é uma das principalmente uma maneira imediata de reduzir a tensão e facilitou uma mudança de foco mental. Questões culturais (música, literatura, arte) também podem ampliar horizontes e colocar as preocupações  de estudo e profissionais em perspectiva. 

2. Busque cultivar o contato com os colegas: a troca de opiniões e experiências com os colegas foi o recurso central para a redução da insegurança profissional. As trocas com colegas serviram como uma forma direta de reduzir a pressão emocional causada pela própria falibilidade e dificuldades em lidar com pacientes difíceis e questões médicas complexas.

3. Mantenha as relações com familiares e amigos: relações familiares e amizades confiáveis ​​representaram um oásis de estabilidade e compreensão. Eles proporcionaram relaxamento por meio de uma mudança de foco e foram benéficos para colocar as coisas em perspectiva.

4. Tenha momentos de reflexão pessoal: reservar de forma consciente e regular um tempo para refletir sobre a situação pessoal em sua totalidade era outra estratégia de promoção da saúde.

5. Organize-se: as principais características da auto-organização eram a criação de rotinas individuais e de estruturas de tempo para lidar com a burocracia e as tarefas regulares. Ambos reduziram a sensação de esgotamento causada pela repetição inútil de tarefas e trabalho extra .

6. Limite sua de jornada de trabalho (e de estudos):  a adesão a um cronograma é uma característica essencial do autocuidado que, a médio prazo, beneficia tanto os pacientes quanto os médicos e estudantes. 

7. Cuide da sua espiritualidade: o apoio e regeneração de práticas espirituais ou meditação regular também é uma ótima estratégia.

8. Aceite-se e seja realista: entre as atitudes que promovem a resiliência, a principal é a capacidade de evitar pensamentos demasiadamente positivos e aceitar realidades externas. Eles se protegeram contra decepções, ressentimentos e autoacusação e protegeram contra o desperdício de energia em tentativas fúteis de mudar as coisas.

9. Tenha autoconsciência e reflexividade: a consciência de situações pessoais  e suas raízes na história de vida, bem como a capacidade de avaliar a experiência de vida são fatores significativos. 

10. Aprecie as coisas boas: focar nesses ativos é um fator importante para alcançar uma atitude geralmente positiva em relação à vida, aos estudos e ao trabalho, o que, por sua vez, gera experiências positivas com outras pessoas e, portanto, era uma fonte de gratificação pessoal.

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Referências

  1. Yoo, DM., Kim, DH. The relationship between students’ perception of the educational environment and their subjective happiness. BMC Med Educ 19, 409 (2019). DOI: 10.1186/s12909-019-1851-0
     

  2. Sharon J. Wayne, Sally A. Fortner, Judith A. Kitzes, Craig Timm & Summers Kalishman (2013) Cause or effect? The relationship between student perception of the medical school learning environment and academic performance on USMLE Step 1, Medical Teacher, 35:5, 376-380, DOI: 10.3109/0142159X.2013.769678
     

  3. Dyrbye L, Shanafelt T. A narrative review on burnout experienced by medical students and residents. Med Educ. 2016;50(1):132–49. DOI: 10.1111/medu.12927
     

  4. Zwack J, Schweitzer J. If every fifth physician is affected by burnout, what about the other four? Resilience strategies of experienced physicians. Acad Med. 2013;88(3):382–9.

Academia Médica
Juliana Karpinski
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Community Manager na Academia Médica, jornalista por formação e designer por paixão, cursa especialização em Gestão Estratégica e é acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná.

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