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Sobre gordofobia - na sociedade e na medicina

Sobre gordofobia - na sociedade e na medicina

Na última sexta-feira, 5 de novembro de 2021, o Brasil (e o mundo) recebeu a devastadora notícia da trágica morte de uma das maiores vozes femininas da música nacional da atualidade. A cantora sertaneja Marília Mendonça havia falecido, juntamente com mais 4 pessoas, em um acidente aéreo quando se deslocava para um show em Minas Gerais. Os veículos de informação, outros artistas e claro, seus fãs, prestaram homenagens e reviveram a carreira de sucesso de Marília. 

No entanto, a cantora, mesmo falecida, não deixou de ser alvo de comentários negativos sobre sua aparência e forma física. Li e ouvi, embasbacada, julgamentos acerca do peso de uma mulher que revolucionou o mercado de seu gênero musical. Vou me abster de reproduzi-los aqui, mas não pude deixar de refletir sobre o preconceito e estigma que envolvem pessoas (e principalmente mulheres) que não se enquadram nos padrões estéticos impostos por uma sociedade que é extremamente diversa, sob todos os aspectos.

Coincidentemente, estou atualmente cursando a disciplina de Endocrinologia no curso de Medicina, especialidade na qual inclusive pretendo me especializar. Embora meus professores tenham trazido o tema de Obesidade com muita sensibilidade e embasamento científico nas nossas aulas, eu fiquei me perguntando se os médicos estão realmente preparados para atenderem pacientes com esta condição. E mais, será que não estamos reproduzindo nos consultórios exatamente as características gordofóbicas tão onipresentes na nossa sociedade? Diante disso, resolvi estudar um pouco mais sobre como o preconceito na saúde afeta pacientes gordos.

Ao pesquisar o termo "gordofobia médica" no Google, aparecem 186.000 resultados. Em sua grande maioria, são links de reportagens, revistas ou blogs nos quais se encontra uma infinidade de relatos de pacientes que sofreram tal preconceito. Desde pacientes que não foram examinados pelo profissional de saúde, que disse "vá para casa, emagreça e só então volte", ou "você tem (insira aqui absolutamente qualquer doença) porque você é gordo/gorda", até casos de insultos e ameaças, como "sua baleia, se você não emagrecer você vai enfartar" ou "é impossível você engravidar, seu marido jamais vai querer ter relações com você desse jeito". Fiquei horas lendo estes tristes relatos, e senti uma profunda vergonha destes "profissionais". Relatos de atendimentos carregados de preconceito, violência e falta de acolhimento fazem parte do cenário que pessoas gordas enfrentam todos os dias na busca por cuidados básicos com a saúde.

No entanto, este tipo de conduta é condenado pelo artigo 23 do Código de Ética Médica:

"... é vedado ao especialista tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto."

Desta forma, profissionais que apresentam tal tipo de "conduta" estão sujeitos a denúncias e punições pelos órgãos médicos - pelo menos em teoria.

Embora isso seja possível, mas não seja realmente concretizado, fiquei mais chateada ainda quando li relatos de pacientes que, após sofrerem gordofobia médica, desenvolveram medo e receio de se consultarem. Mulheres que deixaram de ir aos ginecologistas, pacientes que deixam de fazer acompanhamento de alguma doença crônica ou de retornar ao médico após algum diagnóstico e até mesmo de buscar ajuda em situações de emergência.

E também me deparei com situações para as quais eu jamais havia me atentado: existe também toda uma estrutura física e de equipamentos e aparelhos médicos que não engloba essa parcela da população. Seja uma cadeira de dentista que não comporta pessoas com uma forma de corpo mais larga, sejam braçadeiras de esfigmomanômetros que não possibilitam a aferição da pressão arterial de obesos de forma fidedigna, até a agulha pode não ter o tamanho adequado para se fazer uma injeção profunda, por exemplo. Até mesmo nos livros de anatomia há pouquíssima inclusão de diversidade corporal.

Além disso, a pessoa vítima de gordofobia pode ficar com marcas psicológicas profundas, e desenvolver até depressão, isolamento, ansiedade e até chegar a tentativas de suicídio. Ora, isso me soa um tanto quanto absurdo, visto que o papel dos especialistas é zelar pela saúde, e não levar uma pessoa a adoecer. 

Em 2013, a American Medical Association, maior organização médica dos Estados Unidos, declarou a obesidade como uma doença. Desta forma, ela foi inserida no Código Internacional de Doenças (CID), cujo diagnóstico é feito principalmente com base no cálculo do IMC, Índice de Massa Corporal, parâmetro criado em 1832 e usado normalmente até hoje para definir se alguém é magro, tem sobrepeso ou é obeso. Também se utilizam exames mais específicos, como a bioimpedância, que busca identificar o padrão de distribuição de tecidos (quantidade de massa magra, massa gorda, e outros parâmetros) no corpo do paciente. 

Sabemos que o excesso de adiposidade está, sim, relacionada a uma maior tendência do aparecimento de desordens como diabetes, hipertensão arterial, infarto, trombose, câncer, acidente vascular cerebral e apneia do sono, entre outros problemas. No entanto, os profissionais de saúde não podem ser reducionistas ao ponto de achar que a saúde é refletida em valores normais de exames laboratoriais. Olhando para o outro lado da moeda, sabemos que transtornos alimentares como bulimia e anorexia nervosa são causas importantes de mortalidade, em especial em mulheres jovens, e são impulsionados pela bilionária indústria da dieta e da estética a qualquer custo.

Existe, embora eu não tenha visto isso aqui no Brasil, um movimento chamado Health at Every Size (https://haescommunity.com/), que busca reunir conhecimento e contatos de profissionais que não se limitam a focar somente no peso de seus pacientes. Eles são chamadas Size Friendly, e têm a missão de cuidar dos pacientes com o respeito e dignidade que eles merecem, independentemente de sua composição corporal. 

No entanto, o perfil na rede social Instagram @saudesemgordofobia, protagonizado pelas psicólogas Gabi Menezes e Laís Sellmer, há uma lista de profissionais brasileiros com esta abordagem, com o intuito de garantir qtue pessoas obesas possam, sem medo, procurar um atendimento adequado e livre se preconceitos, como sempre deveria ser.

Neste sentido, recomendo ainda o TedTalk da Kelli Jean Drinkwater, intitulado "Enough with the fear of fat". Ela nos leva a questionar diversas atitudes que temos no dia a dia e também traz a percepção do mundo do ponto de vista de uma pessoa obesa vítima de gordofobia.

O preconceito e o estigma com pessoas obesas está arraigado na sociedade e os profissionais de saúde não fogem à regra. A maioria de nós desconhece a complexidade das causas que levam alguém a ganhar peso, porque a obesidade é multifatorial e de difícil tratamento. Ao adotar o conceito simplista de que comer muito e fazer pouca atividade física causa o excesso de peso, os profissionais de saúde erram - e erram feio.

Não pretendo neste artigo fazer uma romantização da obesidade ou apologia à gordura (ou como mais podem chamar por aí), mas somente instigar a você, leitor ou leitora, que busque estudar um pouco mais sobre o tema e questionar sobre se a sua prática clínica com pacientes obesos está condizente com o que deveria ser. A regra aqui é não pré-julgar o paciente e sua doença, não prescrever juízos de valor ou se basear somente em números e exames, mas sim buscar um olhar íntegro, empático, humanizado e respeitoso sobre o paciente obeso. 

 

 

 

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Academia Médica
Caroline Ahrens Ortolan
Caroline Ahrens Ortolan Seguir

Bióloga, especialista em Gestão Ambiental e acadêmica de Medicina na Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Adoro cozinhar, correr, praticar yoga e ler! Acredito numa Medicina cujo foco não seja na doença, mas sim no paciente.

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