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Como escolher e ler um bom artigo científico

Como escolher e ler um bom artigo científico

Ler e interpretar um artigo científico de forma adequada é uma habilidade que devemos aprender desde a graduação. É comum vermos professores e instrutores recomendando a leitura do artigo Y ou Z, porém na maioria das vezes não há uma explicação das razões pela qual esse artigo é relevante e qual a sua importância para determinado grupo.

Estar apto a identificar um artigo científico pronto como bom ou ruim é requisito básico de todo profissional de saúde. Entretanto, hoje, com a velocidade de informação e a diversidade de estudos científicos, muitas vezes nos vemos perdidos em nos manter atualizados cientificamente e como escolher a melhor estratégia de tratamento para os nossos pacientes.

Apesar de todos os esforços, estudos ainda apontam que poucos profissionais de saúde realmente sabem ler e interpretar um artigo científico. Pior do que isso, poucos se interessam em artigos científicos. (1)

Sem dúvida, se familiarizar com os termos científicos, entender minimamente sobre aspectos estatísticos, sobre as metodologias de pesquisa e sobre os tipos de estudos é o primeiro passo para uma boa leitura. Você não precisa ser um expert em estatística ou metodologia científica, porém, levar em consideração algumas dicas, já é o começo do desenvolvimento de uma visão crítica.

Artigos que levam em conta a estratégia FINER possuem, geralmente, maior robustez no campo científico e denotam um maior cuidado do pesquisador em criar um estudo inédito e relevante para a comunidade científica. Esse mnemônico significa:                                       

F - feasible (viável): considerar o número de participantes, o investimento, tempo e expertise tecnológico;

I – interessante: integra as dúvidas da comunidade científica;

N – novo: original ou então refutar aspectos preexistentes;

E – ético: não fazer mal aos indivíduos ou animais que participam da pesquisa;

R – relevante: em todos os aspectos, como o engrandecimento científico, pesquisas futuras e práticas clínicas e de saúde publica.

Sendo assim, compartilho com vocês algumas dicas importantes para selecionar um bom artigo científico para leitura, segundo o que aprendi ao longo dos anos como profissional de ensino e o que possuímos em dados de literatura:

1. Escolha uma boa revista

Os artigos de maior relevância para a prática clínica e pesquisa geralmente são selecionados em revistas de maior fator de impacto (FI). O FI é a principal métrica utilizada para classificar as revistas científicas, através de um banco de dados com periódicos selecionados que irão compor a análise quantitativa de referências feitas e, consequentemente, citações recebidas para o seu cálculo, ou seja, o FI utiliza uma métrica por citações de artigos para qualificar as revistas. Em linhas gerais, quanto maior o nível de publicações e maior as citações dessas publicações em outras revistas, maior o FI. Revistas classificadas como A1 e B1 são as que possuem maior credibilidade no meio acadêmico. Você pode procurar pelo FI da revista onde o artigo foi publicado no Journal Citation Reports (2). Revistas com maior FI possuem regras mais rígidas para as suas publicações e, portanto, podemos ter acesso a publicações mais robustas.

2. Entenda a importância de cada publicação

O nível mais alto de publicação dentro do meio científico é a metanálise. Nela um grupo de autores faz uma pesquisa de todos os artigos publicados sobre determinado assunto e, através de critérios de inclusão e exclusão, analisam os artigos relevantes para determinado tema via análise estatística, demostrando como conclusão um resultado a favor ou contra determinada intervenção. Portanto a metanálise é a síntese de evidências científicas. Na sequência encontram-se os artigos de estudos analíticos, os quais por definição geram uma hipótese e criam associações entre doenças, testando, refutando ou anulando essas hipóteses. Dentro do âmbito da pesquisa original, os ensaios clínicos randomizados possuem o maior “peso” científico, visto que utilizam um maior número de indivíduos estudados, possuem regras rígidas para a sua realização e são controlados para evitar vieses. Porém, sempre existe a dificuldade de generalização devido a serem estudos extremamente controlados e algumas vezes de difícil reprodutibilidade na pratica clínica. Em relação aos estudos analíticos, além dos ensaios clínicos, existem os estudos observacionais do tipo coorte, caso-controle e transversal, que podem ser prospectivos ou retrospectivos. Eles não testam hipóteses, mas apenas observam uma intervenção ou fator de risco no desenvolvimento de uma doença, são mais atribuíveis à realidade e possuem uma generalização maior, porém, alguns vieses não permitem que sejam o topo da pesquisa original. Há também os relatos de caso, onde são realizados somente a descrição de um determinado caso clínico, sendo muito utilizados para relatar doenças raras onde estudos clínicos randomizados são difíceis de serem conduzidos devido ao número escasso de participantes. Por último, estão as revisões da literatura que têm por objetivo agrupar dados relevantes de um determinado assunto e expor definições e interpretações. Entender o que o pesquisador quer comprovar com determinado tipo de estudo é um passo fundamental para ler ou não o artigo.

3. Identifique um bom título

O título do artigo é o que chama o leitor. Ele precisa ser claro, curto, informativo, e específico. Em geral, um método para localizar um bom título é o “PICOT”. Esse formato engloba:

P - populção estudada;

I - intervenção realizada;

C - presença de grupo controle;

O – desfechos;

T – tempo.

4. Comece lendo o “Abstract”

É o resumo da publicação. Através dele podemos encontrar inúmeras informações do estudo com um todo para avaliar bons artigos. Começando por uma breve introdução sobre o tema abordado e a presença da pergunta do estudo, ou seja, o que o pesquisador quer provar com aquela pesquisa são pontos fundamentais de um bom abstract. Aqui, é importante treinar os olhos para ler a pergunta de pesquisa, visto que muitas vezes ela não vem explícita. Porém, ela precisa ser citada, pois é através dela que o pesquisador delineará seus objetivos primários e secundários (quando houver). Quando não se consegue identificar no abstract a pergunta do estudo e os objetivos é preciso desconfiar do artigo, pois às vezes essas questões ficam emboladas nos materiais e métodos e o leitor acaba se perdendo durante a leitura. Nos materiais e métodos, o autor precisa descrever a metodologia do estudo, a população estudada, e o tipo de intervenção realizada, pois sem esses dados é difícil o leitor selecionar um artigo para seu interesse para determinada população. Nos resultados, é preciso relatar rapidamente o número de indivíduos estudados e os resultados mais relevantes com uma análise estatística resumida, incluindo intervalos de confiança e valor de p. Por fim na conclusão o autor vai ou não comprovar a sua hipótese, nela é obrigatório que sejam relatados se os objetivos do estudo foram alcançados.

5. Entenda um pouco de análise estatística

É nesse ponto que alguns autores “roubam” para melhorar os resultados. Um bom estudo primeiramente deve citar como foi feito o cálculo amostral. É através desse cálculo que o leitor se situa e pode entender se o número de indivíduos estudados foi suficiente para gerar resultados confiáveis e futuramente aplicáveis. A sessão de materiais e métodos deve conter um subtítulo para a análise estatística e nela, além do cálculo da amostra, é necessário estar descrito os métodos utilizados para o cálculo de comparação de variáveis.

6. Estar familiarizado com linguagem gráfica

Nos resultados são apresentados os gráficos com todas as variáveis estudadas na população. Procure no artigo as características da população estudada, idade, sexo, doenças, etc... Procure no artigo se todos os objetivos estão descritos nas tabelas. Os gráficos precisam ser claros e limpos para a leitura correta. Desconfie da publicação caso não consiga identificar graficamente os resultados.

7. Preste atenção à Discussão e Conclusão

O autor precisa ser claro na discussão. É preciso que o leitor identifique os principais achados do estudo, as vantagens, a relevância, e as limitações e/ou dificuldades da pesquisa, além de comparações com estudos prévios, caso eles existam. Lembre-se de que não existe estudo perfeito, não existe pesquisa sem erros. O pesquisador sempre tenta limitar ao máximo a ocorrência de vieses, mas, às vezes, isso torna-se impossível. É recomendado que o leitor busque identificar os diversos vieses presentes no estudo e as limitações, mesmo que essas não sejam totalmente relatadas pelo autor. Para poder entender essas limitações o leitor precisa de tempo, de certa experiência e de conhecimento dos possíveis vieses que ocorrem nos diversos estudos. Por fim, na conclusão, o autor deve ser imparcial, específico e objetivo. Autores que enrolam ou que não chegam a uma conclusão definida, principalmente nos estudos de resultados nulos ou negativos, deixam uma má impressão no estudo e no leitor.

Ao final da leitura, o leitor deverá ser capaz de responder as seguintes questões:

1. Qual o problema que a pesquisa avalia e por que ele importante?

2. A metodologia usada foi boa? Era a melhor para esse tipo de pesquisa?                                          

3. Quais os principais achados da pesquisa? Estou apto a resumir em uma ou duas frases esses resultados?

4. Os achados estão suplantados em evidências persuasivas e robustas?

Em suma, a leitura crítica dos artigos científicos é fundamental para o progresso científico e aplicabilidade clínica da ciência. Permitir que o futuro profissional tenha acesso a variados tipos de estudo, implementar o hábito da leitura científica, e impedir que este se torne um mero repetidor de dados sem sentido é papel de mestres e instrutores ao longo da graduação. Para uma boa leitura crítica é preciso entender como um artigo científico é estruturado, procurando por vezes falhas ou vieses que possam atrapalhar uma correta interpretação, associado à prática incessante, que certamente é o que faz a diferença para a criação de um bom leitor.

E você? Conhece alguma outra técnica para escolher artigos? Vem contar pra gente!

“A prática leva ao progresso” (David Hirsh – Diretor da Harvard Medical School)

Referências:

  1. hmsmedscience.org/
  2. www.guides.libray.cornell.edu
  3. www.euqator-network.org

Leia também os outros artigos da série sobre Ensino Médico, publicado pela Dra. Roberta Fittipaldi.

 

Academia Médica
Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Professora da Pós graduação em Terapia Intensiva HIAE. Cursando doutorado em Pneumologia FMUSP. Médica Assistente UTI Respiratória FMUSP.

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